Fiquei 10 dias por lá, e como presente trouxe o sol na minha pele, o mar nas minhas veias, alento no meu coração...
"Se me quiserem amar, terá de ser hoje, amanhã estarei mudada." (Lya Luft)
Páginas
14/02/2009
Trancoso... um lugar onde me sinto em casa!
Fiquei 10 dias por lá, e como presente trouxe o sol na minha pele, o mar nas minhas veias, alento no meu coração...
06/02/2009
Praia do Espelho... mar demais!
22/01/2009
Tão fácil te querer 2009
Em 2009, lembre-se que:
Do lado de cá fica o lado de lá
(use essa frase como um mantra para conquistar o que parece inatingível, mentalizando o que quer trazer da dimensão dos sonhos para a sua realidade)
Germine os seus sonhos no vaso sagrado do seu coração, regue-os com a água que emana de todas as formas de amor, encontre um lugar na sua vida para que essas sementes criativas possam fazer parte da sua realidade, florescendo em horizontes que se descortinarão em doces e prósperos amanhãs, transmutados, como que por encanto, em "hojes repletos de flores"!!!
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"Todas as preces pedem amor, não importa o que pareçam estar pedindo. A cura é amor, um desejo profundo é amor, a atenção de Deus é amor...
Os desejos tornam-se realidade quando são abrigados silenciosamente no coração.
Não proclame os seus sonhos para o mundo - sussurre-os para o amor."
(Deepak Chopra)
DE-CORAÇÃO... ou: as mudanças necessárias e os rituais de Ano Novo
20/01/2009
Em busca do sol!
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na prórpia luz consumida..."
(Mário Quintana)
Travessia
"Ó Nossa Mãe Terra, Ó Nosso Pai Céu
Nós somos as suas crianças e com as costas cansadas
Carregamos os seus amados presentes.
Por isso teçam para nós o manto da luminosidade
E que a urdidura seja a branca luz da manhã
Que a linha seja a luz vermelha do entardecer
Que a franja seja o cair da chuva
Que a bainha seja o arco-íris.
Portanto teçam para nós o manto da luminosidade
Para andarmos em equilíbrio lá onde a grama é verde
Ó Nossa Mãe Terra, Ó Nosso Pai Céu."
(prece Tewe)
18/01/2009
Viagens
(Martin Buber)
"Devemos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para podermos ter a vida que está esperando por nós."
(Joseph Campbell)
"A vida só é possível reinventada."
13/01/2009
Renascer...
12/01/2009
Adormecer...
(Mario Faustino)
Acordar...

quero saber a noite que se esconde
e revelar e vibrar meu dia.
Quero saborear o divino,
e a Vênus que me guia.
(...)
Eu que da vida só quero a vida,
rasgo a veia por um pouco de azul!"
11/01/2009
Beijo
De noite, ele sai com suas garras, à caça
De algo para amar."
(Sylvia Plath)
10/01/2009
“O Coração do Menino e o Menino do Coração”
"Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe." (Guimarães Rosa)
O CORAÇÃO DO MENINO E O MENINO DO CORAÇÃO
"O miúdo nasceu com as acertadas aparências. Só em altura de ensaiar primeiras marchas lhe notaram o defeito, o enviezamento nos pezinhos, cada um não sendo como cada qual. Sobre as pegadas estrábicas a avó vaticinou:
- Este miúdo vai caminhar para dentro dele mesmo.
Depois outra malconveniência se somou: o rapaz engrumava com o riso parvo de quem finge concordância. Não há medo maior que o riso parvo de quem finge concordância. Não há medo maior que não se entender humana voz de outra humana pessoa.
A mãe conduziu a criança ao hospital. O doutor mergulhou o ouvido no peito e se ensurdeceu de tanto coração. O menino tinha o pulsar à flor da pele. O médico parecia entusiasmado com o inédito caso.
- Necessitamos que ele fique, para mais exames...
- Nem pensar. Esse menino entrou comigo, há de sair comigo.
- Mas a senhora nem faz idéia... temos que encontrar um nome para a doença dele.
- Como um nome?
- Essa doença: eu tenho que encontrar um nome!
- Mas esse nome, será que vai curar a doença dele?
O médico sorriu. Ai essa gentinha simples, tão exímia em ser pensada pelos outros. E assim, sorriso descaindo no lábio, ficou olhando, mãe e filho se afastarem no corredor. O menino levava em sua mão, descaída uma pétala, uma carta que ele mesmo redigira. Queria ter dado ao doutor esse papelinho que sua inabilidade enchera de letrinha. Com desatenta ternura, a mãe lhe tirou o papel dos dedos e o lançou no latão. A mania desse mirabolhante! Deveria ser outra dessas tantíssimas cartas que o tontinho fingia escrever para sua apaixonada priminha.
- Você ainda se carteia com Marlisa?
O menino negou com veemência. A mãe sacudiu a cabeça. Enfim, quanto ela se esforçara em vão. Valera a pena insistir em ensinamentos em quem nunca aprendera? Também Marlisa, a visada sobrinha, jamais cedera em abrir as cartas. Nem valia a pena espreitar a caligrafia do atarantonto. Uns andaram na lua. No caso, a lua é que andava nele.
Certa vez, o rabiscador daqueles engatafunhos desabou no fundo do tempo. O menino faleceu, em azulidão de pele, todo frio como se nenhuma luz dele tivesse vontade. Os médicos acorreram para levarem o corpo e lhe administrarem a extrema autópsia. Lhe arrancaram o coração, o universátil músculo, enormíssimo como um planeta carnudo. O órgão ficou em vitrina, exposto à ciência e aos noticiários. Os cardiologistas disputavam, em sucessivos colóquios, um apropriado nome para batizar a anormalidade.
Passaram-se os dias, anônimos. Era um fim de tarde, a prima Marlisa, ao arrumar as poeiras da casa, deparou com um monte das inúteis cartas. Sopesou-as antes de as lançar no fogo. Hesitou por um segundinho: o moço sabia abecedar uma simples linha?
Pelo sim, pelo talvez, ela se aventurou a espreitar o primeiro envelope. E ali se sentou em espanto, ruga na fronte, mãos enrolando um demorado cabelo. Ficou horas no assentado degrau. Aquilo não eram cartas, mas versos de uma lindeza que nem cabiam no presente mundo. Marlisa inundou a tristeza, tingiram-se as letras. Quanto mais a prima primava em seguir leitura mais rimava com nenhuma outra mulher, toda ela fora do contexto de existir. A moça se apaixonava postumamente?
Mas ali, arremessada na escada, nem Marlisa imaginava o que, no simultâneo tempo, se passava com o coração do primo que Deus e a ciência guardavam. Pois que, na vitrina gelada do Hospital, mal se rasgou o primeiro envelope, o coração do primo deflagrou em sobressalto. Um oh se estilhaçou nos visitantes. E à medida que Marlisa, mais longe que mil paredes, ia desfolhando versos, o coração mais se desembrulhava, tremelusco-fuscando. Até que, daquele novelo vermelho, se viu desprender um braço, mais adiante um pé e a redondez de um joelho e mais argumentos que faziam valer o fato: aquele coração estava em flagrante serviço de parto! E se confirmava, vinda das entranhas do útero cardíaco, uma total recém-criança.
E quando, finalmente, o parto se desfechou, se viu que o menino nascera igual ao seu progenitor de peito. Fazia medo como um quimicava o outro a papel chapado. Em tudo se assemelhavam, menos no desenho do pé. Os pés do nascido eram divergentes, como quem viesse para procurar, fora de si, gente de outras histórias.” (Mia Couto)
09/01/2009
Conjugando o olhar serpenteante de Tirésias ao fogo criador de Hefesto

Olhando para uma foto tirada no Natal de 2007 (veja acima), curiosamente me deparei com uma imagem no espelho ao fundo, que se assemelha a uma mulher com um vestido branco andando num campo ou numa praia, e pode até ser que tenha alguém vestido de preto ao seu lado... é claro que cada um vê com os seus próprios olhos, e nem todos concordariam que uma mulher se presentificou nesse exato momento, como um reflexo no nespelho, dando notícias de uma realidade paralela (que pode ser apenas a dimensão da imaginação, porque não? Porque não considerar o imaginário como uma das dimensões da realidade?).
Da mesma forma, caminhando pela praia de Ubatuba na noite de lua cheia de 30/12/2008 (mas não estava com minha máquina!), vi na areia molhada do mar o reflexo das estrelas, e isso todos veriam e concordariam que é uma imagem real... mas sabe quantas pessoas olham para o chão à procura de estrelas, e se encantariam diante da magia natural de um céu que se deita na areia da praia, e ainda veriam nisso a possibilidade de uma mensagem cifrada do Universo, prenunciando a realização de sonhos (estrelas podem ser associadas simbolicamente aos nossos sonhos, e o chão à nossa realiadade)? Só os poetas, os artistas, os visionários... apesar de todos poderem enxergar essa imagem, nem todos se disporiam a vê-la para além dos olhos do corpo, com os olhos da alma... E Para as pessoas do tipo psicológico Intuição, que é o meu caso (e que muitas vezes são os visionários e artistas em todas as culturas), o que vemos com esse olho que não o do corpo nos parece, na maior parte das vezes, tão ou mais real do que o que está concretizado diante do nosso olhar... (e ai de nós se Dioniso não vier ao nosso encontro para nos redimir!)
“Mas é de noite, quando a alma vigia
e um olho, que não o do corpo,
espia.
(...)
A humilhação me prostra,
meia-noite, meio da vida a pino,
a cova, a mãe, o grande escuro é Deus
e forceja por nascer da minha carne.”
(Adélia Prado)
Personagem da mitologia grega, Tirésias simultaneamente torna-se cego e ganha o dom da mantéia (adivinhação). Sua cegueira aparece conjugada com um tipo de visão peculiar: “trevosa”, “noturna”, “ímpar”, “unificadora”. A vidência corresponde à visão “de dentro para fora”, “das trevas para a luz”, de acordo com Junito Brandão, pois costumamos associar o ato de ver à capacidade de focalizar objetos, destacando-os de um fundo, para a qual precisamos dos dois olhos abertos e da luz incidindo sobre esses objetos (visão “diurna”, “par”).
A cegueira/vidência de Tirésias tem origem em seu processo iniciático. Ao subir numa montanha e defrontar-se com um casal de cobras copulando, Tirésias mata a cobra fêmea, tornando-se, por isso, mulher, voltando a ser novamente do sexo masculino quando, sete anos mais tarde, encontrando-se numa situação similar, mata a cobra macho. Por ter a experiência dos dois sexos, foi chamado a dar sua opinião diante da questão levantada numa discussão entre Hera e Zeus (se era o homem ou a mulher que tinha mais prazer numa relação sexual). Citando Junito Brandão:
“A visão de Tirésias, etimologicamente , o que tem a capacidade de visão, é a visão de dentro para fora, por isso é mantis. Diga-se de passagem, que, de maneira muito constante, a mântica está relacionada com a serpente, réptil ctônico por excelência e, por isso mesmo, em comunicação com o mundo de baixo, depositário muito antigo da adivinhação.”... “Acrescente-se, por fim, que a cegueira atribuída a numerosos videntes, de Tirésias a Orfeu, ( ... ) está acoplada à esfera da mântica ctônica, trevosa. Vê-se, adivinha-se de dentro ara fora, das trevas para a luz...”
A simbologia das duas cobras copulando pode ser associada à Uroboros, serpente que come a própria cauda, símbolo da totalidade e do Caos primordial (presente em diversas culturas) em que os opostos estão indissoluvelmente unidos:(Chevalier e Gheerbrant)
Segundo a Picologia junguiana, a consciência nasce e se estrutura a partir do Caos inconsciente, através da vivência e elaboração de símbolos. A consciência discrimina e separa os opostos para poder conhecer e entrar em contato com os diversos aspectos da realidade. Por ser focal, ao iluminar determinados aspectos, destacando-os e discriminando-os do todo, ela cria sombra (da mesma forma que acontece quando um foco de luz incide sobre um objeto).
A sombra representa o que não queremos, não aguentamos ou não conseguimos enxergar. Tendemos a projetá-la no outro, que passa a ser depositário dos nossos “outros eus”, lançados para fora de nós e quase sempre rejeitados. Uma das características da sombra, quando projetada, é a de gerar uma forte reação de repulsa, ódio ou abominação diante do que não queremos ver em nós mesmos. Quando a sombra é iluminada e assimilada pela consciência, favorece a criatividade e a equilibração psíquica. A sombra é também o desconhecido, o inconsciente. A consciência é sempre unilateral (só consegue enfocar um aspecto de cada vez) e necessita estabelecer relações significativas com o outro e com o inconsciente para poder ampliar-se.
Tirésias nos propõe inverter a ordem “diurna”, consciente (pois simbolicamente as “trevas” são associadas ao desconhecido e a luz à consciência), e ver o mundo com outros olhos, a partir de um novo ponto de vista. Vendo o mundo de “dentro para fora”, desestabiliza as nossas concepções anteriormente constituídas. Diante dessa proposição, podemos não encontrar, de antemão, referenciais para nos situarmos com relação a essa nova experiência, o que pode gerar sentimentos de angústia e medo.
A visão de Tirésias tinha um caráter peculiar: ele agia, para seus consulentes, como um espelho que refletia a face oculta, velada, de suas personalidades; ele trazia à tona as tramas invisíveis do Espírito, do desconhecido em nós, o que sempre provocava algum tipo de reação. Toda revelação instaura um novo foco ao redor do qual as experiências e expectativas se reorganizam, deflagrando um processo de transformação das relações eu-outro, eu-mundo, a partir de uma ampliação de consciência.
Crono, ao receber a revelação de que um dos seus filhos o destronaria, passou a engoli-los. No entanto, o oráculo só denunciou o caráter devorador, voraz, de qualquer padrão ou princípio ordenador que se pretenda absoluto e perpétuo, não abrangendo com isso a possibilidade e necessidade de reovação periódica. Talvez, e muito provavelmente, Crono, não suportando a visão de sua ambição desmedida pelo poder, engolisse seus filhos para não confrontar-se com os aspectos sombrios de seus desejos.
Muitas vezes agimos como Crono quando nos deparamos com o caráter estranho e inusitado do novo. O novo assusta, não só por ser uma ameaça de destruição ao que já tem nome e forma, não só pelo prenúncio de uma futura mudança, mas por já instaurá-la. O novo, como um recém-nascido, denuncia a nossa própria fragilidade ao lidar com realidades inusitadas. O novo assusta por conjugar morte e vida numa única experiência: o destronamento de Crono é concomitante, e não posterior, à geração e ao nascimento de seus filhos - é o próprio futuro tornado presente e trazendo o desmanchamento do passado que lhe deu origem. Engolir os filhos é como uma tentativa de se apossar do fluxo vital, tentativa vã: estancar, aprisionar, pode trazer pode trazer a ilusão de completude, ao preço de ser capturado pelas próprias ansiedades e medos, e o ser dobrar-se sobre si mesmo como ácido corrosivo.
A cegueira/visão de Tirésias, portanto, se nos apresenta como um símbolo com o qual podemos nos disponibilizar a interagir (ampliando a nossa consciência), ou diante do qual podemos ter uma reação de repulsa, medo, negação ou idealização como forma de fugirmos ao confronto com o que nos causa estranheza.
Na mitologia de vários povos, a cegueira aparece conjugada com a vidência. Aparentemente, a cegueira de Tirésias é fruto de um castigo (imposto por Hera) e sua vidência uma compensação (concedida por Zeus). No entanto, um olhar mais aprofundado revelará que ambas são contingências de um processo iniciático, e, portanto, correspondem à expressão de um momento existencial, a uma determinada qualidade de experiência. Um olhar prospectivo nos mostraria então que existe nesse binômio (cegueira/vidência) uma especificidade do ser a ser apreendida e compreendida, um determinado posicionamento diante de si próprio e do mundo. E como somos limitados por natureza e por nosso aparato psíquico não nos permitir abarcar a totalidade dos fenômenos, necessitamos, enquanto corpo social, que outros nos falem do que vivem e percebem a partir de seus pontos de vista, da mesma forma que nos vemos no e através do olhar do outro.
Precisamos estar em contato com os nossos “outros eus” para que a complexidade e riqueza da nossa existência caleidoscópica e multifacetada possa ser abarcada e contemplada. Muitos iam ao encontro de Tirésias para lhe perguntar o que ele estava vendo lá de onde ele estava, e da mesma forma Tirésias, através dessas pessoas, saía de sua caverna. E esse encontro e essa troca só era possível porque havia familiaridade entre Tirésias e seus consulentes, ambos eram seres humanos e passavam por experiências de vida semelhantes, paradoxalmente.
Nos mitos, encontramos frequentemente o binômio deficiência/eficiência, como em Hefesto, que é um deus coxo. Há duas versões para a origem do defeito físico de Hefesto. Em uma delas, Hera, indignada pelo fato de Zeus ter gerado sozinho a sua filha Atená (deusa da sabedoria, que nasceu a partir da cabeça de Zeus, já mulher feita, com 21 anos), decidiu também gerar por conta própria um filho: Hefesto. Só que Hefesto teria nascido com os pés tortos e, como mancava, Hera, sentindo-se humilhada, o rejeita, lançando-o do Olimpo abaixo. Em outra versão, durante uma discussão entre Zeus e Hera, Hefesto toma o partido da mãe e diante disso Zeus, enfurecido, pegou Hefesto por um de seus pés e o atitou fora do Olimpo, e com o tombo Hefesto teria ficado aleijado e manco.
Junito conta que Hefesto chegou a forjar um trono de ouro para ela, mas que na verdade era uma armadilha: ao sentar-se nele, Hera não consegue mais sair de lá, e é Dioniso quem, com o seu vinho, embraga Hefesto e consegue levá-lo de volta ao Olimpo para desatar a mãe desse trono, e com isso Dioniso o ajuda a dissolver a margura decorrente da rejeição e do abandono, tornando-o apto a ter uma esposa - diga-se de passagem que Hefesto foi marido de Afrodite (exigiu isso para libertar Hera de seu trono), a própria deusa do amor e da beleza, nada menos que isso!!!
Hefesto canaliza o seu fogo para a criatividade e a cura. Torna-se também o deus dos nós, o que lhe conferia poderes mágicos, sendo portanto o "xamã do Olimpo", de acordo com Brandão. Em várias mitologias, são os Deuses-Ferreiros ou os ferreiros divinos que forjam o raio e o relâmpago usados pelos deuses. É também um deus-ferreiro que entrega ao Deus-Trovão as armas com que ele vence o monstro – o Dragão aquático ou a serpente, criando e organizando o mundo (segundo Mircea Eliade). A imagem do ferreiro aparece, em diversas culturas, intimamente relacionada a rituais de cura e de iniciação, ao canto e dança e às construções em geral.
Tanto em Tirésias quanto em Hefesto encontramos a conjugação dos opostos deficiência/eficiência, talvez mostrando que nunca se é só uma dessas coisas: o “deficiente” ou o “eficiente”. Além disso, há sempre uma trama de significações abarcando a totalidade dessa vivência, que geralmente vem relacionada a um processo de iniciação, onde se sacrifica determinado aspecto ou modo de existir para a aquisição de novas formas de ser e estar em relação.
No nosso cotidiano, ao elegermos um desses opostos como desejável, aceitável, invejável, e o outro como desprezível, indesejável, inaceitável, criamos uma disparidade que limita e compromete a nossa percepção e possibilidade de compreensão de nós mesmos e do mundo que nos cerca, dando margem ao estabelecimento de relações assimétricas, que podem tornar-se opressoras e segregadoras, e à criação e perpetuação de mecanismos de exclusão e abandono do que não desejamos em nós ou para nós, ou do que consideramos como “elemento estranho” à nossa constituição.
“... deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; ... , receei ficar mais tempo e enlouquecer.”
(Machado de Assis)
Ele pode então passar a afastar-se do convívio social e das relações mistas (por temer ser rejeitado), isolando-se e impondo-se a exclusão de “dentro para fora”. Pode aceitar e incorporar o papel de “bode expiatório”, passando a ver-se como o que carrega a falta, o defeito, os “males”, às vezes impondo-se um esforço sobre-humano para destacar-se em algum setor como compensação do que considera como uma “falta”, ou tendo suas conquistas hiper-valorizadas, como se decorressem de um ato heróico (o que é consequência de uma desqualificação e desvalorização de suas capacidades). O diferente pode também colocar-se no lugar da vítima a ser imolada, talvez no desespero de, pelo menos assim, encontrar um lugar, reconhecido pelo outro, para habitar. Outras vezes, pode incorporar o estigma “ao avesso”, agregando-se a guetos em que a união entre os membros pode basear-se e consolidar-se através da oposição àqueles que os estigmatizam.
Em todas essas atitudes, tanto por um lado (da normalidade) quanto por outro (das diferenças), o diferente é visto como um “elemento estranho”, dissonante, sendo desterritorializado, desqualificado e muitas vezes despido de seu caráter humano (“coisificado”), sendo considerado pelo senso comum como aquele que deve ser banido, escondido ou rechaçado.
“Há muitas formas de se tratar anomalias. Pela via negativa, podemos ignorá-las; simplesmente não percebê-las e, se as percebemos, podemos condená-las. Pela via positiva, podemos deliberadamente confrontar a anomalia e procurar um novo padrão de realidade no qual ela tenha lugar."
(Mary Douglas)
Todo símbolo, por ser uma criação conjunta entre a consciência e o inconsciente, contém aspectos conhecidos e desconhecidos. Se não houvesse nos símbolos algo que pudesse ser reconhecido pelo ego, não haveria material com o qual a consciência pudesse se relacionar para integrar em sua esfera os aspectos novos e desconhecidos veiculados por eles. O símbolo, dentro da abordagem junguiana, não é um disfarce ou simulação de uma realidade outra, mas um elemento revolucionário, desestabilizador, na medida em que traz o novo, o que não se enquadra nos moldes já constituídos pelo ego, movendo-o em direção à busca de novos significados e de referenciais mais amplos.
O contato com o símbolo desorganiza o status quo consciente, o que pode ser vivenciado, num primeiro momento, como uma ameaça à integridade psíquica, pois traz à tona a urgência de renovação e resignificação, definindo o eu e o outro, e as contingências que os envolvem, a partir de novas bases.
Podemos pensar que o contato com o diferente, assim como todo confronto com um novo símbolo, faz emergir questões que desestruturam em algum nível os referenciais do ego (que tem uma certa tendência à inércia e ao conservadorismo) podendo despertar reações ambivalentes, como as de ataque e fuga, atração e repulsão. Pois essa é uma vivência que envolve a percepção de novas possibilidades existenciais, o que mobiliza a reformulação de ideais, expandindo os contornos da experiência inter e intra-subjetiva.
Será que ainda precisamos perpetuar rituais como os do bode expiatório para nos desvencilharmos das vivências terroríficas, ameaçadoras ou simplesmente inusitadas desencadeadas pelo espelhamento-projeção de nossa sombra nos aspectos não familiares e rejeitados (ou valorizados negativamente por nossa cultura)? Ou poderemos ser mais criativos e humanos, criando espaços em que o contato com os aspectos sombrios ou desconhecidos do ser possa ser vivido construtivamente, ao invés de defensivamente?
Se a diferença/deficiência gera uma reação emocional tão intensa nos que entram em contato com ela é porque no “estranho” e inusitado existe algo de familiar, de alguma forma as pessoas, em algum nível, se reconhecem nele. Sendo assim, os mecanismos de exclusão do diferente também nos apartam de aspectos relevantes de nossa constituição como pessoa e como humanidade, significando sempre uma perda, um empobrecimento.
Tanto Tirésias quanto Hefesto possuem as marcas de quem foi além de si mesmo. Ambos transcenderam e conjugaram criativamente as polaridades. Mostraram aos homens e aos deuses que não existe trevas sem luz, deficiência sem eficiência. Ambos, Hefesto e Tirésias manejavam uma determinada espécie de fogo: Tirésias transmuta o fogo dos desejos, da libido, em “luz-consciência”, simbolizando uma subida em direção ao significado. Hefesto, cujo nome significa: "o que incendeia a água" (segundo Junito Brandao em seu Dicionário Mítico-etimológico), por outro lado, é um deus que, atirado à terra, trabalha no interior de um vulcão, utilizando o fogo celeste para acelerar os processos da natureza, como um alquimista, dando forma e visibilidade aos atributos divinos e insuflando o sopro-fogo criador na matéria. Ambos transcenderam e conjugaram criativamente as polaridaes.
"Deus coxo e artífice genial, Hefesto carrega em si a contradição entre a perfeição e o erro, inconcebível em uma divindade, mas inerente à natureza dos seres humanos." (Ana Maria Cordeiro e Victor Palomo, no livro: Mitologia Simbólica)
Podemos recorrer à habilidade artística de Hefesto, ao seu fogo criador, e conjugá-la com a profundidade da visão serpenteante, reveladora e auto-reflexiva de Tirésias para criar espaços de convivência e trocas significativas entre as diferenças, possibilitando o exercício da alteridade. (E o trabalho em Arteterapia e com Oficinas de Cratividade pode e ser um desses espaços!). Pois é só através da disponibilização para a troca significativa com o outro, da abertura para conciliar os opostos e conjugá-los amorosamente (com a ajuda de Eros) que os antagonismos podem ser superados através da criação de paradigmas mais amplos e flexíveis que regulem e permeiem as relações.
“Eros...traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda a existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros busca superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade.”
(Junito Brandão)
05/01/2009
A “loucura sagrada”: de Dioniso a Jesus Cristo

22/11/2008
"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde"...
Numa tarde de maio, após descascar uma laranja e comê-la, percebi que entre as cascas havia uma em forma de coração...
O coração é um dos símbolos de Oxum, a Orixá das águas doces, do amor e da beleza...
Que tem que ser vivido até a última gota.
(Clarice Lispector)
"Se é verdade que um grande amor não se esquece é porque o outro fica gravado em nosso corpo através das potências vitais que ajudou a despertar. É assim que um antigo amor pode permanecer vivo em nós."
18/11/2008
"A gente sempre deve sair à rua... de alma aberta e coração cantando!"
"A gente sempre deve sair à rua como que foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe de alma aberta e coração cantando!"
(Mário Quintana)
Feliz!!!
Além de rever pessoas por quem tenho grande carinho, respeito e apreço, que conheci nos congressos passados, conheci pessoas muito queridas e especiais!
Me sinto muito grata à todos que estiveram nesse congresso pelo carinho e interesse com que receberam o meu livro – vendi todos os que levei!!! – e as minhas apresentações.
10/11/2008
Nasceu!!!
Amanhã viajo prá Canela com a mala cheia de sonhos que já germinaram em uma prática linda, colorida, e tão necessária ao mundo atual, traduzida nesse livro que será em breve sucedido por outro que está no forno da editora Casa do Psicólogo (eles me disseram que será lançado antes do começo do ano letivo): Arteterapia e Mitologia Criativa: orquestrando limiares - fundamentos, alcance e aplicações dos diferentes recursos arteterapêuticos.
06/11/2008
Auto-retrato
as sementes que eu planto, eu rego,
e o que eu não quero mais, porque não me faz mais bem, eu arranco pela raiz.
O fogo que eu ateio, eu alimento;
a minha cria, eu lambo,
e quando os filhotes crescem e estão prontos para a vida, eu os empurro para o mundo, eu os libero...
É assim que eu expresso a Força;
é assim que eu expando o Amor;
é assim que eu reverencio a Vida.
E estou aberta a fazer parcerias
desde que seja para compartilhar
tanto a aragem quanto a colheita de novos amanhãs...
Beija-flor
Possa ele trazer-nos o vinho
ao néctar da inteireza

