"Que te devolvam a alma homem do nosso tempo. Pede isso a Deus ou às coisas que acreditas: à terra, às águas, à noite desmedida. Uiva se quiseres, ao teu próprio ventre se é ele quem comanda a tua vida, não importa... Pede à mulher, àquela que foi noiva, à que se fez amiga. Abre a tua boca, ulula, pede à chuva. Ruge como se tivesses no peito uma enorme ferida, escancara a tua boca, regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA." (Hilda Hilst)

23/12/2011

Nesse Natal, coloque os seus sonhos aos Ojos de Dios!

“Rezar muito e ter fé. Porque as coisas estão todas amarradinhas em Deus.” (Guimarães Rosa)


O Natal é um momento sagrado, por diversos motivos, mas todos apontam para o Centro, para o que nos é essencial, e que está na base de tudo o que desejamos, acreditamos e esperamos viver. Por isso, alude à idéia de renascimento, ao símbolo da Criança Divina que nos coloca em contato com nossos sonhos de felicidade, bem aventurança e contentamento... Tantos quantos forem os nomes que os homens derem para Deus, assim também serão as formas de festejarmos, compartilhando com a família humanidade os frutos colhidos da Árvore da Vida a partir desses sonhos acessados no céu estrelado (cada estrela um dom divino à espera de ser despertado em nós) e semeados na terra onde trilhamos a nossa existência.
“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.” (Guimarães Rosa).


Como dizem os hindus:

"Deus é um círculo cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma". E como falou sabiamente Alce Negro a partir de um sonho iniciático:

"Mas todo lugar é o centro do mundo, e lá eu via de uma maneira sagrada, a forma de todas as coisas no espírito, e a forma de todas as formas, como teriam que viver juntas como um único ser. E vi que o aro sagrado de meu povo era um de muitos aros que formavam um único círculo, largo como a luz do dia e a luz das estrelas, e no centro dele crescia uma única majestosa árvore florida, que abrigaria todas as crianças de uma única mãe e um único pai.”


Uma forma bonita de trazermos para a realidade essas sementes de amanhãs nesse Natal pode ser confeccionando e pendurando em nossa Árvore de Natal Ojos de Dios ou Olhos de Deus, recurso que eu pesquisei para poder utilizar essa atividade no trabalho arteterapêutico (copio do meu livro Vol 1: Temas centrais em Arteterapia, o trecho abaixo que conta com que fim esses objetos eram confeccionados):

"Os “olhos de Deus” eram confeccionados por povos ancestrais da África e da América Central (México, Peru), sendo também encontrados no Oriente. No México, o “olho mágico” é pendurado do lado direito da porta de entrada de uma casa, como amuleto de proteção. Esses povos teciam um “olho de Deus” quando nascia uma criança: o miolo representa os olhos de Deus sobre essa criança, protegendo-a, e os fios coloridos representam os pedidos feitos a Deus, como por exemplo: sorte, saúde, amor, etc. Esse objeto era então pendurado em seu berço, e a cada ano de vida um novo “olho de Deus” era confeccionado. Considerava-se que quando essa criança tivesse 5 anos, ela já seria então capaz de confeccionar os seus próprios “olhos de Deus”, fazendo-o a cada aniversário seu." (in: BERNARDO, 2008).

Sendo assim, podemos confeccionar Ojos de Dios na época do Natal marcando o seu contro com a cor que represente a semente divina dentro de cada um de nós (escolha a cor que para você o sagrado, a luz, a dimensão divina) e escolha uma cor diferente para representar cada pedido seu para o novo ano, você pode também confeccionar Olhos de Deus para presentear os amigos e parentes, e até mesmo para Gaia (o nosso lindo planeta Terra), expressando o que deseja para todos (para todos os nossos parentes que convivem conosco na Terra: homens, plantas, pedras, animais...) e pendurá-los todos em alguma árvore ou planta. E um conto que pode ser trazido à cena, inspirando a confecção de Ojos de Dios (que podem ser feitos por todas as pessoas de uma família, ou num grupo, por exemplo), é Os Sete Novelos (copio abaixo o resumo dessa história do meu livro Vol 1):
"Esse conto começa com um rei viúvo que tem 7 filhos, os quais vivem em desacordo, fato que preocupa bastante o pai. Quando o rei morre, os filhos ficam sabendo que têm um único dia para aprenderem a conviver pacificamente: recebem um novelo de seda de cor diferente cada um, e devem conseguir transformar esses novelos em ouro para receberem a herança de seu pai. Decidem então confeccionar com os sete novelos um único tecido, que é transformado em ouro ao ser vendido no mercado por uma quantia generosa paga em moedas de ouro, e ao final dessa tarefa aprendem o valor da cooperação, recebendo sua herança, além de decidirem dali para a frente ensinar às pessoas de sua aldeia a transformar fios coloridos de seda em ouro." (in: BERNARDO, 2008).

“As coisas assim a gente não perde nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas". (G. Rosa).

"Vem cá, senta hoje ao meu lado,
olha junto comigo para o céu
depois de um dia de trabalho
depois de rir e chorar, falar e calar (...)

O que resta de nós na noite escura?
Temores? Tremores? Certezas? Dúvidas?
Cheiros? Cores? Vertigens? Funduras? (...)

De você, quero o olhar que me reconhece
chama acesa no centro do peito.
De mim, verte esperança...
De nós dois, quero os sonhos que se possam concretizar.

Por isso, olha para o céu e me diz: qual dessas estrelas
é semente de manhã que se possa cultivar?

Porque todos os sonhos são sementes
e todas as estrelas são guias...
(trechos de um poema meu, 1999)

16/12/2011

"A Infinita Fiandeira", conto de Mia Couto

Qualquer semelhança entre a aranha, o artista e o arteterapeuta não é mera coincidência... A arte etrelaça o homem à teia de todas as nossas relações, mas nem sempre isso é compreendido por quem não sabe olhar através do palpável, e assim vislumbrar as infinitas possibilidades de recriar a Vida! Como escreveu Mia Couto na epígrafe do seu livro de contos: "O Fio das Miçangas":



A miçanga, todos as vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as miçangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.




A INFINITA FIANDEIRA

A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem nem finalidade. Todo bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatias funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
- Não faço teias por instinto.
- Então, faz porquê?
- Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
- Minha filha, quando é que acentas as patas na parede?
E o pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim...
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem, mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
- Vai ver que custa menos que engolir mosca - disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar sua coleção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Qaundo ela, já transfigurada., se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
- Faço arte.
- Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos - chamados de obras de arte - tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.