"Que te devolvam a alma homem do nosso tempo. Pede isso a Deus ou às coisas que acreditas: à terra, às águas, à noite desmedida. Uiva se quiseres, ao teu próprio ventre se é ele quem comanda a tua vida, não importa... Pede à mulher, àquela que foi noiva, à que se fez amiga. Abre a tua boca, ulula, pede à chuva. Ruge como se tivesses no peito uma enorme ferida, escancara a tua boca, regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA." (Hilda Hilst)



19/08/2019

MINHA TRAJETÓRIA!

Mitologia africana e Arteterapia - Patricia Pinna Bernardo [Arteterapia ...



Tem vídeo novo meu no canal do YouTube Consciência Próspera, falando sobre Mitologia Africana e Arteterapia, espero que vocês curtam mais esse vídeo!
“Yatunde”, a mãe voltou. Mãe África, quente como a noite tropical, majestosa no seu cortejo de divindades que surgem da escuridão, forças da Natureza, água, mar, lama, relâmpago, vento e trovão, forças que nos rodeiam e nos impregnam, forças que nos envolvem e nos regeneram. Os atabaques rufam e os Deuses, felizes, dançam, dançam os mitos antigos, dançam o fogo e sua ira, dançam a frescura das cachoeiras cristalinas, dançam a onda que quebra na praia, dançam a criação do Mundo... E a bênção divina se espalha sobre os homens.” (Gisele Omindarewa Cossard)

24/07/2019

O Recurso da GARRAFA em Arteterapia





Tem vídeo novo no meu canal!!! Nesse vídeo eu falo sobre o mito de Iemanjá, Orixá associada ao movimento das águas do mar, que caminham em direção à praia e retornam em direção ao mar profundo e insondável, assemelhando-se com os ciclos que atravessamos ao longo da nossa vida, e comento sobre uma das atividades em Arteterapia associada a uma das suas histórias, a atividade da Garrafa de Iemanjá, ou "potes mágicos",  conforme descrito no meu livro Vol III - Mitologia Africana e Arteterapia: a força dos elementos em nossa vida.

Espero que curtam mais esse vídeo!!!

08/07/2019

A função sentimento e elemento água - Patricia Pinna Bernardo [Arteterap...



Tem vídeo novo meu no canal Consciência Próspera!
“Pela dança voltamos ao ventre materno. Foi lá, neste oculto abrigo, que libertamos o primeiro tambor e executamos os primeiros movimentos de embalo. Foi lá que fomos peixes, fomos água, adormecida onda, incessante maré.” (Mia Couto, em Outro pé da sereia)


05/07/2019

O jogo da Amarelinha dos contos de fadas



Tem vídeo novo meu no meu canal do Youtube! Nesse vídeo eu falo sobre o jogo da Amarelinha em seu sentido simbólico, de intercâmbio energético entre a consciência (Terra) e o inconsciente (Céu), que resulta num processo criativo que acrescenta algo novo à nossa realidade. Eu mostro também como traduzi essa pesquisa na confecção do primeiro volume da série: Jogos Arteterapêuticos: “A Amarelinha como Árvore da Vida – a Jornada do Herói através dos Contos de Fadas.

Você pode ver sobre como adquiri esse jogo e o seu Sumário, bem como dos meus outros 6 livros da minha coleção: A Prática da Arteterapia – correlação entre temas e recursos na seção Livros desse Blog

Até nosso próximo encontro! E caso você queira receber em arquivo de word um texto meu falando sobre a interpretação simbólica do conto Os Três Porquinhos, deixe o seu email nos comentários que lhe enviarei. O texto é:

Em busca do Pote de Ouro - trabalhando com contos e histórias em Oficinas de Criatividade (p. 123 a 139) in: CUPERTINO, C. M. B. Espaços de criação em psicologia: oficinas na prática. São Paulo: Annablume, 2008.

28/06/2019

Valter Hugo Mãe - As mais belas coisas do mundo

As mais belas coisas do mundo. 
(Valter Hugo Mãe, no livro Contos de 
cães e maus lobos)


meu avô sempre dizia que o melhor da vida haveria de
ser ainda um mistério e que o importante era seguir procu-
rando. Estar vivo é procurar, explicava. Quase usava lupas
e binóculos
mapas e ferramentade escavação, igual a um
detective cheio de trabalho e talentos. Tinha o ar de um ca-
çador de tesouros e, de todo o modo, os seus olhos reluziam
de uma riqueza profunda. Percebíamos isso no seu abraço.
Eu dizia: dentro do abraço do a
vô. Porque ele se tornava uma
casa inteira e acolhia-nos. Abraçar as
sim, talvez porque sou
magro e ainda pequeno, é par
mim um mistério tremendo.
Eu sei que ele queria chamar a atenção para a importância
de aprender. Explicava sempre que aprender é mudar de con-
duta, fazer melhor. Quem sabe melhor e continua a cometer
o me
smo erro não aprendeu nadaapenas acedeu à informa-
ção
Ele achava que dispomos de informação suficiente para
te
rmos uma conduta mais cuidada. Elogiava insistentemente
o cuidado. Era um detective de interiores, queria dizer, ins
peccionava sobretudo sentimentos. Quando lhe perguntei
po
rquê, ele respondeu que só assim se falavverdadeiramente
ace
rca da felicidadePara estudar o coração das pessoas é pre-
ciso um cuidado cirúrgico. Estava constantemente a pedir-
-me que prestasse atenção. Se prestares atenção vês corações
123


e podes tiramedidas à felicidade. Como shouvesse uma fita
métr
ica para isso.
Propunha que desvendasse adivinhas e dilemas. Propunha que desvendasse labirínticas lógicasPrometia-me um
novo li
vro ou um caderno com marcadores amarelos e ver-
melhos, os meus favoritos. Promet
ia que, se eu descobrisse
cada resposta, me daria outro abraço ainda ma
is apertado
e sempre mais amigo. Por melhores que fossem os 
cadernos,
o orgulho que sentia naqueles abraços era a 
vitória. Comecei
por entender que nenhuma vi
tória me gratificava mais do
q
ue descortinar uma resposta e aceder a um abraço. De cada
v
eque a nossa cabeça resolve uproblema aumentamos
de 
tamanho. Podemos chegar a ser gigantes, cheios de lonjuras por dentro, dimensões distintas, paíseinteiros de ideias
e co
isas imaginárias.
Eu queria ser sagaz, ter perspicácia, estar sempre inspi-
rado
O meu avô pedia qunão me desiludisse. Quem se
d
esilude morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantadoO encanto é a única cura possível para a inevitável tristezaHavia, às vezes, um momento em que discutíamos a tristeza.
Era fundame
ntal sabermos que aconteceria e quimplicaria
uma força ma
ior.
Um dia, explicou-me, eu passaria a ser capaz de colocar
as minhas próprias questõ
es, ofício mais difícil ainda do que
procurar respost
as. Sozinho, saberia inventar um mistério
até para mim m
esmoComo sefosse o lado de cá e o lado
de lá das co
isas. O lado de cá e o lado de lá do mundoUcristal com emissão de luz para todos os sentidos.
124


Aprendi que o dinheiro tem interesse na troca por coisas,
mas não todas. De qua
lquer modo, o meu avô ensinou que
não devemos dar tanta atenção ao preço mas ao valor. Ele
acreditava que faltava ao mundo mais coisas sem preço de
vido ao grande valor que tinham. Na verdade, quanto maior ° valor mais indecente se torna que sejam vendidas. Aquilo
que há de mais valioso deve ser um direito de toda a gente
e distribuído por graça e segundo a necessidade.
Aprendi que uma semente aninhada num bocado de al-
godão húmido pode rebentar num gigantesco pé de feijão.
O meu avô dizia que as sementes eram meninos de pedra que
nasciam por um bocado de água. Como se fossem pedras com
tanta sede que se tornavam capazes de inventar a vida só para
poderem beber.
Aprendi que a minha avó ficou doente e precisou de
morrer.
Por causa de estar muito doente, a avó precisara de morrer
para ficar sossegada. Não lhe poderíamos falar, mas ela seria
um património dentro de nós, uma recordação que a saberia
manter como viva.
Perguntei se o avô não iria entristecer demasiado. A minha
mãe respondeu que sim. Todos sentiríamos uma profunda
tristeza
O meu avô disse-me que teríamos de procurar a fe-
l
icidade daqueles tempos mais difíceisSe esperarmos, um
dia a 
tristeza dá lugar à celebração. Íamos aprender a celebrar
a avó
Mas nunca esperaríamos quietosA quietude é uma cerimónia do pensamento, mas logo é fundamental bulir. Fazer
qualquer coisa.
125


Passeávamos a repetir os nomes do que havia no cami-
nho. Como se chamava cada árvore e cada pássaro, como
se distinguiam as tantas flores no jardim da nossa vizinha
solteira. A vizinha cuidava das flores 
à espera que o bom
perfume da vida lhe trouxesse o amor. Gostávamos muito
dela. O meu avô reparava em como ela escolhia sempre pelo
coração. Tinha uma inteligência apenas amorosa. Podia dar
muito erro para as ciências, mas haveria de garantir-lhe a fe-
licidade quando um rapaz casadoiro a descobrisse.
Nesse tempo, o meu avô perguntou-me quais seriam as
coisas mais belas do mundo. Eu não soube o que dizer. Pen-
sei que poderiam ser o fim do sol, o mar, a rebentação no
inverno, a muita chuva, o comportamento dos cristais
a cara
das mulheres, o circo, os cães e os lobos, as casas com chami-
nés. Ele sorriu e quis saber se não haviam de ser a amizade,
o  amor, a honestidade e a generosidade, o ser-se fiel, educado,
oter-se respeito por cada pessoa. Ponderou se o mais belo do
mundo não seria fazer-se o que se sabe e pode para que a vida
de todos seja melhor
.
Pasmei diante do seu conceito de beleza.
Ele incluía os modos de ser, esses ingredientes comple-
xos que compõem a receita do carácter ou da personalidade,
a maneira um pouco inexplicável como somos e sentimos
tudo.
Convenci-me de que as coisas mais belas do mundo se pu-
nham como os mais profundos e urgentes mistérios. Eram
grandemente invisíveis e funcionavam por sinais dúbios que
nos enganavam, devido 
à vergonha ou à matreirice. O que
126


sentem as pessoas é quase sempre mascarado. Deve ser corno
colocarem um pano sobre a beleza, para que não se suje ou
não se roube, para que não se gaste ou não se canse.
A beleza, compreendi, é substancialmente o pensamento,
aqu
ilo que inteligentemente aprendemos a pensar. A força
do pensamento haverá de criar coisas incríveis, científicas,
intu
itivas, maravilhosas, profundas, necessárias, movedoras, salvadoras, deslumbrantes ou amigas. Pensar é corno fazer.
Para a beleza é imperioso acreditar. Quem não acredita
não está preparado para ser melhor do que já é. Até para ver
a realidade é importante acreditar. A minha mãe disse que eu
virei um sonhador. Para mudar o mundo, sei bem, é preciso
sonhar acordado
Apenas os que desistiram guardam o sonho
para o tempo de dormir.
Quando fiz dez anos de idade o meu avô precisou de morrerO meu pai levou-me a passear e a pensar. Fornos pensar.
Corno se fôssemos dar nomes aos pássaros e às árvores, ver
as flores da vizinha e distinguir até a composição das pedras.
Mas isso já aprendera e não haveria de esquecer. Eu disse: 
talvez não tenha aprendido nada porque me custa mudar de
conduta, só me apetece chorar, pai
.
O meu pai respondeu que o avô estivera sempre feliz
comigo, mas envelhecera muito, cansara
-se, morrer era só
corno deixar
-se sossegar.
Eu senti que o seu sossego era do tamanho da nossa so-
lidão.
Depois, acrescentei: há urna felicidade para os tempos difíceis. Sei que é importante seguir à sua procura. Não estou
127


seguro de ter entendido a beleza, mas prestarei atenção com
todo o cuidado. Jurei acreditar. Acreditei sempre, mesmo
antes de saber o quanto.
Puseram o meu avô debaixo de flores como se fosse solteiro e esperasse pelo amor.
Senti teficado do lado de fora do abraço, como se a casa
tivesse ido embora com um temporal e me pusesse irreme-
diavelmente desabrigado. Eu pensei
fora do abraço do avô.
Levedesenhos para lhe contar uma história pequena. De-
senhei o meu avô passeando, depois, sentado ao pé do riacho
e também de braço levantado a tentar ser
vir de árvore para
um pintassilgo. Desenhei o meu avô a ler livros em voz alta
e a repetir que a sopa é redonda como o sol e ilumina a nossa
fome. Desenhei-nos a rir. E desenhei o seu abraço. Pensei:
dentro do coração há sempre um abraço. Passei a viver sobre-
tudo dentro do coração, como numa casa que não
pode ir-se
embora.
Eu entendi que o meu avô era como todas as mais belas
coisas do mundo juntas numa só. E entendi que fazer
-lhe
justiça era acreditar que, 
um dia, alguém poderia reconhecer
a sua influência em mim e, talvez, considerar de mim algo
semelhante. Com maior erro ou virtude, eu prometi tentar.
À noite, deito-me como uma semente na almofada húmida
do coração. Fico aninhado com a esperança de crescer esplen-
dorosamente por dentro do amor. No verdadeiro amor tudo
é para sempre vivo. E sei que, como as pedras, vivo da sede.
Quero sempre inventar a vida.
128

31/05/2019

Sincronicidade e Tarot em Arteterapia



Segundo a definição de Jung, sincronicidade se refere a eventos que não têm relação de causa e efeito entre si, mas uma relação de significado, coincidindo no tempo e no espaço, sendo, portanto, eventos sincrônicos. E é sobre isso que falarei nesse vídeo, mostrando ainda alguns trabalhos de alunos e formas que a sincronicidade se apresenta para nós.

29/05/2019

AFRODITE NO DIVÃ

"Embora pareça existir somente no domínio transpessoal" o mito "é a chave para a nossa existência pessoal e histórica, o DNA da psique humana" (Campbell)
Você já imaginou presenciar deuses gregos, orixás e personagens dos contos de fadas num divã, contando suas histórias em uma sessão com o próprio Jung? Pois essa é a proposta do nosso Teatro Arquetípico. No primeiro encontro dessa série você estará cara a cara com a deusa grega Afrodite, contando o seu mito, e o drama com o seu filho Eros e sua nora Psiqué!
Coordenação: Patrícia Pinna Bernardo
As inscrições no evento Afrodite no divã deverão ser feitas pelo link:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfq9t-TEGlR-vSljd6jAkgt43xmcaoPsDio-3vybu6TAYMq9Q/viewform?usp=pp_url
Se quiser saber mais detalhes que não encontre nesse link me contate pelo email: pat.pinna@uol.com.br ou pelo whats (11) 99136-4430
Até lá!!!
Investimento:
60,00 / 50,00 (estudante)
(ao se inscrever você receberá um email/ whatsapp com os dados para fazer o depósito da inscrição)

16/05/2019

Scherazade e o poder de tecer com palavras!


Do Poder da Palavra
ADÉLIA BEZERRA DE MENESES  

Em "As 1001 Noites", Sheherazade vence a morte e o poder, propiciando a cura através de um discurso vivo, corpóreo 

“As 1001 Noites" em geral nos chegaram através de antologias infantis. Conhecemos as  Histórias: "Sindbád, O Marujo", "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa­”, "O Pescador e o Gênio”  etc. Mas tais antologias acabam por privar o leitor do plano geral da obra - a estrutura de encaixe dos contos, embutido uns dentro de outros- e, sobretudo, da poderosa figura da Sheherazade, que vence a morte através da Literatura. Trata-se da maior apologia da Palavra, de que se tem conhecimento. E analisar o papel da contadeira de histórias significará abordar o problema das relações da mulher com a Literatura, da mulher com a Palavra, da mulher com o símbolo e com o corpo.
Sheherazade é personagem da narrativa que inicia e termina "As 1001 Noites", servindo-lhes de moldura; é a partir dela que se dará o pretexto para os demais contos. Trata-se da história de Xariar, sultão de todas as Índias, da Pérsia e do Turquestão, que descobre, por intermédio de seu irmão, imperador da Grande Tártaria, que sua mulher o traía. E ele toma conhecimento disso no mesmo momento em que o irmão lhe revela que também fora traído pela mulher. A conclusão é inevitável: "Todas as mulheres são naturalmente levadas pela infâmia, e não podem resistir à sua inclinação". O sultão, no estupor da mais funda desilusão afetiva, propõe ao irmão que ambos   abandonem seus Estados e toda a sua glória, e saiam pelo mundo para, em terras estranhas, melhor esconderem seu comum infortúnio. O irmão aceita, com a condição de que voltariam se encontras sem alguém mais infeliz do que eles próprios. Seguem caminho, disfarçados, e chegam à beira-mar, onde são surpreendidos por algo que parece um maremoto. Sobem a uma árvore, escondem-se entre os galhos, e presenciam uma cena qual um gênio (um djinn) tira do mar uma grande caixa de vidro, fechada a quatro chaves, onde estava encerrada uma bela mulher, quase adolescente, que ele libera da caixa. Era a sua mulher, que ele roubara para si no dia de suas núpcias, e que mantinha presa. Declarando-se cansado, o gênio diz à mulher que gostaria de deitar a cabeça nos seus joelhos, e adormece.
Os dois irmãos acabam por ser descobertos no meio das ramagens de seu esconderijo pelos olhos perscrutadores da jovem. Ela retira delicadamente a cabeça do gigante do colo, vem para baixo da árvore e propõe aos dois irmãos que tenham relação com ela. Atemorizados pela presença do gênio, eles inicialmente se recusam, mas ela os força exatamente com o argumento de que, se não dormissem com ela, ela acordaria o gênio. Obrigados, eles satisfazem sua vontade, primeiro o mais velho, depois o caçula. Ao fim, a jovem pede a cada um o seu anel. E diante de seus olhos estupefatos, abre uma pequena bolsa que continha outros 98 anéis. Conta que esses anéis foram dos homens que já a tinham possuído. "Com os dois de agora, diz ela, completo uma centena". "Uma centena de amantes, malgrado a vigilância ciumenta e a precaução do gênio, que me quer só para si". Ele se esmerava em encerrá-la numa caixa no fundo do mar, mas ela não deixava de enganá-lo...  “Vede que, quando uma mulher tem um desejo, não há marido que possa impedir a sua execução" - dizendo isso, ela se senta e coloca de novo a cabeça do gênio, que continuava a dormir, tranquilamente em seu colo.

Plano
Os dois irmãos voltam pelo caminho de onde tinham vindo, comentando que nada no mundo ultrapassava a malícia das mulheres, e que, nesse assunto, até aquele gênio de poderes sobrenaturais era mais infeliz do que eles. Convencidos da perfídia feminina, decidem retornar cada um para o seu reino. O sultão Xariar formula um plano, que lhe permitiria manter sua honra inviolavelmente preservada, sem que fosse obrigado a prescindir de mulher: consistia em dormir a cada noite com uma virgem, e no dia seguinte, ao acordar, mandar matá-la, pelo seu grão-vizir. E escolheria uma nova para a noite seguinte, e assim por diante. A cada dia, uma jovem casada e morta. E o início dessa prática trouxe à cidade a mais intensa das desolações.
Ora, o grão-vizir, que devia ao sultão a mais cega obediência e que malgrado sua vontade, a cada noite apresentava ao sultão um nova virgem, e a cada manhã, malgrado sua repugnância, era obrigado a matá-la, tinha duas filhas: Sheherazade e Dinerzade. E assim que, textualmente, é apresentada Sheherazade, na versão de Galland:
"... tinha uma coragem maior do que se seria de esperar do seu sexo, e um espírito de uma admirável penetração. Tinha muita leitura e uma memória tão prodigiosa, que nada lhe es­capava, de tudo que ela "avia lido. Aplicara-se com todo sucesso ao estudo da filosofia e da medicina, e das belas-artes; e fazia versos melhores que os mais célebres poetas do seu tempo. Além disso, era provida de uma grande beleza, e uma muito sólida virtude coroava todas essas belas qualidades." (G., vol. 1, pág. 35)
Dessa descrição ressaltam primeiro as qualidades "intelectuais" que fazem de Sherazade uma mulher extremamente inteligente e que se cultivava (lia, estudava, fazia poesia). Mas suas características propriamente físicas -que não são dadas em detalhe, e vêm depois, e só depois, das intelectuais, também não são descuradas: trata-se de uma bela mulher.
Pois bem: essa mulher altamente interessante que parece ser Sheherazade, comunica um dia ao grão-vizir seu pai que queria tornar-se mulher do sultão:
"Desejo por um termo a essa barbárie que o sultão exerce sobre as famílias desta cidade. Quero dissipar o temor que tantas mães têm de perder suas filhas de uma maneira tão terrível. (...) Se eu perecer, minha morte será gloriosa; se tiver êxito, restarei um serviço importante minha pátria."
E combina com a irmã seu plano: Dinerzade deveria deitar-se no quarto nupcial (sob pretexto de que, ainda uma vez, elas pudessem passar uma noite próximas), e uma hora antes do romper do dia, deveria acordar Sherazade e solicitar-lhe que contas­se uma de suas histórias. É o que se passa: nessa noite, depois de ter dormido com o sultão, que a desvirgina, Sheherazade é despertada pela irmã, que lhe pede uma história -talvez pela ultima vez. Depois de obtida a permissão do sultão, Shehrazade começa a narrar. E no auge do suspense, quando a ação esta para ser definida e a curiosidade do seu real ouvinte aguçada, vendo que a aurora se anunciava, suspende sua narrativa:
"Sheherazade, nesta passagem, percebendo que era dia e sabendo que o sultão se levantava bem cedo para fazer suas preces e ir gerir seus negócios de Estado, parou de falar." (G., vol. 1, pág. 46).
Diante da observação da irmã, de que essa história era maravilhosa, Sheheraza­de lhe afirma que a continuação seria mais maravilhosa ainda e que, se o sultão quisesse deixá-la viver mais um dia, que lhe desse per­missão para acabá-la na noite seguinte. Sheherazade ganha um dia de vida. Na segunda noite, quando a irmã a acorda, Sheherazade "satisfaz a curiosidade do sul­tão"; acaba a historia inicia­da e começa uma nova, interrompida no auge do suspense, ao romper a aurora: e assim, noite após noite, o sultão declara desejar ouvir a história iniciada na véspera, e a deixa viver por mais um dia. Não há garantia, nem Sheherazade a pede: ela consegue, à prestação, dia a dia, ganhar um dia de vida. Ela aceita assumir o risco absoluto: arrisca perder a vida, para recuperar ao sul­tão uma imagem feminina, perdida pela infidelidade. Há algo de épico no seu gesto:uma mulher que, através da Palavra, salva a raça feminina.
E quando chega a milésima primeira noite, o sultão se rende: "1001 noites tinham transcorrido nesses inocentes divertimentos; elas tinham mesmo ajudado muito a diminuir as prevenções iradas do sultão contra a fidelidade das mulheres; seu espírito tinha-se abrandado; ele estava convencido do mérito e da sabedoria de Sheherazade; lembrava-se da coragem com a qual ela se tinha exposto voluntariamente a tornar-se sua esposa, sem apreensão quanto à morte a que se sabia destinada no dia seguinte."
E diz o sultão: "Bem vejo, amável Sheherazade, que sois inesgotável em vossas narrativas; há muito me divertis; pacificaste minha cólera, e eu renuncio de bom grado à lei cruel que eu me tinha imposto... Desejo que sejais considerada como a libertadora de todas as moças que deveriam ser imola­das ao meu justo ressenti­mento". (G.vol.3,pág. 439).

Memória
Isso, na versão de Galland. Na versão de Mardrus (1) (por muitos considerada a "tradução obscena" de "As 1001 Noites"), as coisas são apresentadas de uma maneira bem mais concreta. Em Mardrus, Sheherazade apresenta ao sultão ao fim da 1001ª noite, os filhos que, ao longo desses quase 3 anos, ela tivera com ele. A relação sexual entre o sultão e Sheherazade, que Galland omite, Mardrus explicita: ganha aqui inequívocas provas, ganha concretude.
Mas voltemos um instante à caracterização inicial de Sheherazade. Se há algo que a tipifica sobremaneira, é sua prodigiosa memória. Em "As 1001 Noites" podemos vislumbrar as ligações da narrativa com o infinito, da Memória com o infinito aspecto esse que se tornará bastante evidente se formos situar a Memória na sua dimensão mítica. Com efeito, no Panteão grego, a Memória, "Mnemosyne", é uma deusa, filha de Urano e de Gaia, irmã de Chronos e de Okeanos - a memória, filha do céu e da terra, irmã do tempo e do oceano: todas, metáforas de infinitude...
E a Memória é para os gregos a mãe das Musas, mãe das divindades responsáveis pela inspiração. ''Mnemosyne'' preside à função poética. A própria sacralização da Memória (os gregos fizeram dela uma divindade!) revela, por si só, o alto valor que lhe é atribuído numa civilização de tradição oral, como foi, entre os século 12 e 8, antes da difusão da escrita, a da Grécia.
Essa deusa feminina tem tudo a ver com Sheherazade. "Mnemosyne" revela as ligações obscuras entre o rememorar" e o "inventar": a musa inspiradora da invenção poética é, ela própria, filha da Memória. Sherazade, a contadeira de histórias, não era apenas uma espécie de repositório vivo das histórias de seu povo, não apenas aquela que "transmitia" histórias contadas por outros; na sua caracterização inicial, fora-nos dito que ela também escrevia "versos melhores que os dos mais célebres poetas seu tempo". Ela também criava.
E assim, noite após noite, Sheherazade vai, com a ajuda da Memória, conduzindo adiante o fio de suas histórias: vai tecendo as narrativas. Não é um fio linear: é uma teia, uma trama. Infin­dável, infinita. Uma história dará margem a uma outra história que, embutida dentro dela, desembocará numa terceira, que contém em si o germe de uma quarta etc. etc. Na acepção do último tradutor ocidental de "As 1001 Noites", Khavam (saiu sua tradução completa, na França, em 1986), Shehera­zade é "La Tisserande .des Nuits" -a tecelã das noites.

Mulher tecelã
Evidentemente, essa trama, essa rede narrativa eram frutos da astúcia de Sheherazade: serviam para enredar o sultão. Essa trama narrativa (trama quer dizer também procedimento ardiloso!) no limite significava... tramóia: a astúcia, velha arma dos fracos contra os fortes. E arma feminina, muitas vezes.
Sheherazade, a astuciosa, é a mulher que tece narrativas intermináveis, e que nesse fio prende o seu homem e vence seu poder. E nessa linha de astúcias, e de fios, e de tramas, há toda uma tradição (é verdade que de outra cultura, mais uma vez, a grega) de mulheres fiandeiras (2). Penso sobretudo em Penélope, de quem já se disse que é tão astuciosa quanto seu marido, o astuto   Ulisses, tecendo infindávelmente o manto com o qual afastará os pretendentes à sua mão, enquanto espera a volta do seu homem. Mas há também Ariadne, que fornece a Teseu o fio com que ele enfrenta o Labirinto; e Pandora (a primeira mulher), tecelã, que aprendeu a arte das fiandeiras com a deusa Atena, cujo epíteto é exatamente Atena Penitis, a "tecelã"; e Aracnê, que desafia a deusa Atena na arte da tapeçaria e acaba transformada em aranha. E há as Parcas, que tecem a trama dos destinos humanos. Todas, mulheres. Por que é sempre feminina a personagem que lida com o fio? Num estudo sobre a Feminilidade (3), Freud tece uma engenhosa explicação: a arte da tecelagem teria sido uma invenção de mulheres, inspirada pelo pudor feminino. Com efeito, o pudor, diz ele, teria como finalidade primitiva dissimular os órgãos genitais, dissimular a fenda que existe no sexo feminino:
"Parece que as mulheres fizeram poucas contribuições para as descobertas e invenções na história da civilização; no entanto, há uma técnica que podem ter inventado traçar e tecer. Sendo assim, sentir-nos-íamos tentados a imaginar o motivo inconsciente de tal realização. A própria natureza parece ter proporcionado o modelo que essa realização imita, causando o crescimento, na maturidade, dos pelos pubianos que escondem os genitais. O passo que faltava dar era enlaçar os fios, enquanto, no corpo, eles estão fixos à pele e só se emaranham."
Mas voltemos a Sheherazade e Penélope, astuciosas e fiéis. Trata-se, aqui, do mesmo tema da fidelidade. Não nos podemos esquecer de que, na história de Sheherazade, é a fidelidade que está em jogo: o desígnio cruel que o sultão se havia imposto, de que sua mulher por uma noite fosse morta ao romper da aurora não tem outro objetivo senão preservar, ainda que à custa da morte, a fidelidade feminina. (E ao mesmo tempo, como veremos mais adiante, tal desígnio impedia-o de amar vedava ao sultão o amor: matando a mulher com quem dormia a cada noite, impedia-se de relacionar-se em continuidade, de estabelecei vínculos).
Penélope/Sheherazade Uma tece infindavelmente o manto, dia após dia, no meio dos príncipes,e sua fidelidade é condição para o reencontro; outra tece infindavelmente, noite após noite, teia de sua narrativa: sempre em suspense, sempre na terminada. Terminá-la, seria a morte.
Penélope: a fidelidade por um fio. Sheherazade: a vida por um fio. A falta de término, em ambas, é uma metáfora do infinito. Em ambos o casos, na tecelagem que praticam, é a fidelidade que está em questão. No caso de Penélope, a trama feita desfeita é seu ardil, para afastar os pretendentes reservar-se para a volta de Ulisses. No caso de Sheherazade, a construção de su teia narrativa não apenas ardil para ganhar mais um dia de vida, mas seu fio narrativo refaz, ponto a ponto, os farrapos do coração do sultão, dilacerado pela traição feminina.
Sheherazade tece o tecido de sua  história, conduz o fio da narrativa. A trama da narrativa não é um fio; é uma teia, com todas as suas ramificações, e nessa rede ela enreda o sultão. Não por acaso que ela é a imagem mesma da sedução.
Penélope: aquela que tece. Seu próprio nome (em grego, Penelopéia) revela sua vocação: do grego "pene", fio de tecelagem, e, por extensão, trama, tecido (daí nosso pa­no do latim pannus). E c substantivo grego "penelopéia" significa: dor. Tudo se explica quando pensamos que ela vivia na nostalgia (= dor do retorno) de Ulisses, e que o pano que ela tecia (que tem a ver com a morte: era uma mortalha para Laertes, o pai do seu marido) era garantia da sua fidelidade, como que vedava o acesso de sua sexualidade aos pretendentes que a assediavam:
"Então, de dia ela tecia a grande tela e de noite, desfazia a sua obra, à luz das tochas. Foi assim que, durante três anos, ela soube esconder sua astúcia e enganar os Aqueus" ("Odisséia", cap. 24).

Astúcia
Penélope, Sheherazade uma tece de dia, outra tece de noite. Três anos: aproximadamente 1001 noites. Fidelidade e sedução articuladas Em ambas, uma mulher vence o poder masculino. Qual é, exatamente, a astúcia de Sheherazade?
A primeira resposta é que Sherazade não apenas joga com a imperiosa necessidade de ficção que habita o coração de cada homem, mas teria inventado também a técnica do suspense: inicia uma narrativa aguça a curiosidade de seu ouvinte e... não a satisfaz - naquela noite.  O desenlace seria narrado na próxima noite, se o sultão lhe concedesse mais um dia. Aos poucos, vão sendo introduzidas referências às reações do sultão, e, especificamente, à sua curiosidade. Assim termina, por exemplo, a noite 33:
Sherazade preparava­se para prosseguir seu conto; mas, percebendo que era dia, interrompeu sua narrativa.  A qualidade dos novos personagens que a  sultana acabava de introduzir em cena tendo aguçado a curiosidade Xariar, e deixando-o na espera de algum acontecimento singular, o príncipe esperou  a noite seguinte com impaciência" (G., vol. 1, pág.25)
Ou então: "O sultão, persuadido de que a história que  Sherazade tinha a contar seria o desenlace das precedentes disse consigo mesmo: “ É preciso que eu me conceda o prazer completo."Levantou-se e resolveu deixar viver ainda este dia a sultana". (G.,  vol. 1, pág. 216).
Satisfazer a curiosidade, para o sultão, significa prazer. Postergá-la, significa cultura. Pois uma das coisas que diferenciam o homem do animal é exatamente isso: a capacidade de postergar a realização do prazer. E assim temos a curiosidade do sultão extremamente bem administrada por Sheherazade, com sua técnica de suspense. E os textos acima provam o quanto a quaIidade narrativa de suas histórias, sua qualidade literária, por­tanto (a saber: introdução adequada de novos personagens; previsão de aconteci­mentos singulares; preparação cuidada do desenlace) conta.
E o interessante é que a curiosidade está presente em dois níveis, em "As 1001 Noites": nesse primeiro nível, da "macro-estrutura", na história que serve de moldura é a curiosidade que fundamenta o adiamento da execução da sultana. Mas também, ao nível das histórias contadas, entre os mui­tos motivos recorrentes nas narrativas de "As 1001 Noites", esse motivo da curiosidade adquire grande importância, dado seu estatuto de desencadeador das ações. Curiosidade  necessidade imperiosa de conhecer. Aguilhão do saber por experiência. Haveria que se fazer um estudo antropológico da curiosidade, e do papel que ela desempenha em várias religiões e mitologias: desde a curiosidade de Eva, atiçada pela serpente, na narrativa mítica do Paraíso, tal como aparece no "Gênesis" ("Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do Bem e do Mal não comerás..." E o resto a gente sabe: a queda, a expulsão do Eden, o Paraíso Perdido...), passando pela curiosidade de Pandora, que abre a fatídica caixa de males que se espalharão por toda a terra, só restando no fundo da caixa a esperança...; até a curiosidade do curumim que abre o coco de tucumã que encerra noite, fazendo com que a escuridão se espalhasse pelo mundo, como na lenda indígena brasileira. Sempre a curiosidade, com o que ela representa de fálico e faustico, de motor do progresso e de propulsora do espírito humano, mas também com o que ela com­porta de fragilidade: deixar-se vencer pela curiosidade significa "sucumbir a uma fraqueza", cair em tentação. Como naquela história que Sheherazade conta ao sultão, do moço a quem foram franqueadas 99 salas de um castelo, com todas as suas delícias; mas vedada a abertura da 100 ª porta: premido pela curiosidade, ele a abre, e ai começa a sua perdição. Mas sobretudo, em vários contos de "As 1001 Noites" (como "O Comerciante e o Gênio" ou "História dos Três Dervixes e das Cinco Damas de Bagdá", e muitas outras), é a curiosidade por uma narrativa a ser feita por uma personagem que lhe salva a vida, inicialmente suspendendo a execução da sentença e, finalmente, anulando-a. Assim, o mesmo elemento que se encontra, importantíssimo, a nível da estrutura geral da obra, comparece no detalhe, em numerosos contos.
E Sheherazade, o que faz é manipular a curiosidade do sultão. No entanto, ao longo das 1001 noites processasse uma evolução. Considera-se Sheherazade como a especialista do suspense. Contudo, isso é só inicialmente verdade: ao longo de suas tantas noites de contadeira de histórias, ela abandona o suspense, chegando a levar a termo, ao romper da aurora, as suas narrativas. Mas acena com a próxima... Ela abandonará o recurso do suspense  - que  tem algo de um golpe mais ou menos enviesado - um discursus interruptus-  chegando a terminar os contos na mesma noite em que os iniciara. E mesmo prescindindo do recurso do suspense, o sultão a deixará viver, mais um dia.
E aqui está a segunda a resposta para a pergunta "em que consiste a astúcia de Sheherazade": na realidade, ela lida é com o Desejo. E todos sabemos que o Desejo não tem um objeto que o aplaque; uma vez cumulado, ele ressurge, desperto do outro, e assim sucessivamente. Não tem objeto que o supra, que o satisfaça, que o cumule. O que é que que o sultão queria? Uma nova de história, e por isso Sheherazade viveria mais um dia, e depois outro, e outro. Ela não tenta obter dele, logo de do início, que lhe poupe a vida para sempre: consegue dele, a cada dia, que lhe poupe a vida por aquele dia. Mas ele, também, o sultão, daria sentido a mais um dia de sua existência, na espera/expectativa de algo que o plenifique. A função de Sheherazade era alçar sua vontade, tendê-la para algo por vir. Ela age no sentido de acutilar o Desejo, de atiçá-lo, de só ilusoriamente aplacá-lo... por uma noite. Uma vez supostamente aplacado, ele renascerá. O objeto do Desejo está sempre além, sempre adiante, visa sempre um além que escapa: é isso que nos conta a história de Sheherazade e do sultão de todas as Índias.
E o mundo do Desejo é o mundo do Id, mundo da noite, da magia e da fantasia. O dia que surge significa que a voz de Sheherazade deve-se calar; é de dia que se realizaria sua execução. Há uma fórmula quase que ritual, que esconde o fio narrativo de Sheherazade: quando rompe o dia, ela se cala, e o sultão vai "cumprir seus deveres" de chefe de Estado. Há aí um confronto entre o princípio do prazer e o princípio de realidade: o princípio do prazer cessa com a luz do dia, quando se impõe a realidade, com o seu cortejo de opressões. As noites são para as histórias e para o amor; os dias são para o trabalho (e para a morte)
 Palavra
Referi a situação (presente tanto a nível das histórias que Sheherazade conta, quanto naquela da própria sultana, e que serve de mol­dura às demais) em que uma vida é trocada por uma narrativa. Isso significa um extraordinário apreço pela palavra. As vezes esse apreço é expresso materialmente. Numa das histórias que Sheherazade conta ao sultão ("A História de Ganem"), por exemplo, registra-se o seguinte:
"Ele [o califa] achou esta história tão extraordinária que ordenou a um famoso historiador que a escrevesse, em todos os detalhes. Ela foi em seguida depositada no seu tesouro, de onde várias cópias tiradas deste original a tornaram pública." (G., vol. 2, pág. 420)
As histórias excelentes são guardadas no tesouro real! Estamos numa civilização em que, literalmente, a palavra vale ouro, em que a história narrada é tesouro.
E ainda, a palavra aqui é mágica. Já repeti várias vezes que, através da Palavra, Sheherazade vence a morte e o Poder. Sheherazade, a mulher, instaura um novo tipo de poder. A força da Palavra radica na magia. A palavra aqui transforma -como no curandeirismo, na magia, na religião... e na psicanálise. O conto "Ali-Ba­bá e os 40 ladrões", por exemplo, é expressivo disso: trata-se de uma palavra mágica, palavra eficaz, que tem o poder de remover um rochedo, o poder de fazer abrir a entrada da gruta onde os ladrões guardam seus tesouros: "Abre-te Sésamo". Ali-Babá a guarda na memória, com cuidado e respeito, e ela se torna um instrumento de força na sua boca. Mas seu irmão, o invejoso e insolente Cassim, se esquece da palavra certa, e tenta outras, que não têm, no entanto, a força mobilizadora da palavra mágica. Da palavra transformadora, que remove rochedos. Ele consegue penetrar na gruta dos ladrões, mas depois não consegue sair:
“... acontece que ele se esquecera da palavra necessária (...) e, em lugar de "Sésamo", diz "abre-te Cevada"; e espanta-se ao ver que a porta, longe de se abrir, permanece fechada. Nomeia vários outros nomes de grãos, diferentes daquele que era necessário, e a porta não se abre". (G., vol. 3, pág. 247).
Ele se esquecera da palavra certa, da boa palavra acaba perecendo às mãos dos ladrões, que o pilham preso dentro da gruta.
Pois bem, há algo de mágico na palavra, na história do rei Xariar e da bela Sheherazade, que consegue demover seu coração de pedra. A tentação de um paralelo com a psicanálise é bastante grande: essa situação extra­ordinária em que a Palavra (aquela que é preferida pelo paciente, e aquela que é ouvida por ele) é palavra eficaz: provoca alterações, transforma aquele que a recebe. Restaura-se aqui o po der arcaico e mágico da Palavra.
O poeta, o mago e o psicanalista: aqueles que constroem coisas com a pa­lavra, que alteram a realidade, modificam a essência profunda do ser. E ao lado poeta, do mago e do psicanalista, a mãe, que conta histórias, a mulher.
A mulher contadeira de histórias: sua influência foi reconhecida por todos aque­les que, desde a Antiguidade, se preocuparam com o problema da eficácia da Palavra, da força transformadora da palavra:
"Por conseguinte, teremos de começar pela vigilância sobre os criadores de fábulas, para aceitarmos as boas e rejeitarmos as ruins. Em seguida, recomendaremos às mães que contem a seus filhos somente as que lhes indicarmos e procurem amoldar por meio delas as  almas das crianças com mais carinho do que por meio das mãos fazem com o corpo." ("República", livro 1  2,377b).
O grifo, evidentemente é meu, realça a importância  extrema que Platão atribui às narrativas: capacidade de moldar, de plasmar almas. Não seria exatamente isso que Sheherazade faz com o sultão? Ela plasmou, moldou sua alma, "abrandando o seu espírito".
Jeanne Marie Gaguebin, num artigo publicado no Folhetim (4), articula essa passagem de Platão a um texto de Walter Benjanim, que se intitula, exatamente, "Narrar e Curar" (5). Além da ligação entre a fala e o gesto, entre a voz e a mão (a que retornarei mais adiante), o texto de Benjamin aponta, de uma maneira extremamente pertinente, para a cura pela narração (não fosse esse o seu título!) - que é, como todos sabemos, apanágio da psicanálise ("tal­king cure') e de certas técnicas de cura chamanísti­cas.
Pode-se considerar o sultão doente, ferido na sua afetividade, na sua capacidade amorosa, pela traição feminina; pois bem, nessas longas noites de história, Sheherazade vai exercendo junto a ele um longo processo terapêutico, analítico, pontuado, a cada manhã, pela interrupção com que ela o remetia á  vida real. Ao fim das 1001 noites, o sultão se declara "curado", abandona o "sintoma" e se dá alta: "Vós pacificastes minha cólera, e eu renuncio de bom grado e, vosso favor, à lei cruel que eu me tinha imposto". E Sheherazade cessa suas narrativas.
Num processo analítico, o paciente fala; ao analista, cabe a escuta. Ele também fala, interpretando; mas o que funda a psicanálise é o discurso do analisando. Pois bem, aqui se trata de um processo invertido: é a escuta que é transformadora, é a escuta que cura o sultão.
Falei da psicanálise e também aludi a certos processos de cura chamanistica, que, aliás, estabelecem com a psicanálise mais de um vínculo. Lévi Strauss relata, na "Antropologia Estrutural" (no capitulo "L'Efficacité Symbolique") um procedimento dos índios Cuna do Panamá, por ocasião dos partos difíceis: o chamã canta para a mulher grávida, diz palavras ao seu ouvido, e assim o nascimento da criança é facilitado. Trata-se, como observa o antropólogo, "de uma medicação puramente psicológica, uma vez que o chamã não toca no corpo da paciente, nem lhe administra remédios; mas, ao mesmo tempo, é colocado diretamente e explicitamente em causa o estado patológico e seu centro: diríamos antes que o canto constitui uma manipulação psicológica do órgão doente, e que é desta manipulação que a cura é esperada' (6). Manipulação psicológica: metáfora expressiva para o processo psicanalítico. E também para aquele processo em que as narrativas, como queria Platão, moldam as almas, "com mais carinho do que por meio das mãos fazem com o cor­po". Mas voltemos a Lévi Sstrauss. Diz ele que o chamã fornece à sua doente uma 'linguagem: "E é a passagem a esta expressão verbal (que permite, ao mesmo tempo, viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência atual, mas sem isso, anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico, isto é, a reorganização, num sentido favorável, da seqüência da qual a doente sofre o desenvolvimento" (pág. 218).
O sultão se encontra crispado na sua ira de traído, bloqueado na sua capacidade de amar: Sheherazade oferece a ele uma linguagem, na qual esse estado pode exprimir-se. Sheherazade fala, e o sultão escuta. É como se a perturbação afetiva grave, de que fora acometido, na sua ira de traído pelas mulheres, só fosse acessível à linguagem simbólica da poesia e da literatura. E aqui a gente encontra a narrativa restaurada no seu sentido pleno e primordial, de veículo de experiência humana.
Sheherazade oferece ao sultão uma linguagem, um discurso simbólico que possa atingi-lo, por inteiriçado e crispado que ele estivesse na sua incapacidade afetiva. Ela oferece ao sultão o acesso ao mundo simbólico; oferta-lhe uma linguagem, como queria Lévi-Strauss, "na qual podem exprimir-se estados não formulados e, de outro modo, não formuláveis". "Não é portentoso que na noite 602, o rei Xariar ouça da boca da rainha a sua própria história?", pergunta-se Jorge Luís Borges (7) extasiado.
Sheherazade apresenta a Xariar o nível mítico: apresenta-lhe à consciência conflitos que o traumatizaram, bloqueando sua capacidade afetiva, de tal maneira que ele possa lidar com eles. É por isso que ela não expurga de suas narrativas as histórias de adultérios e traições femininas, não omite casos em que as mulheres enganam a seus maridos; ela não faz ao rei uma narrativa "ad usum delphini"; é notável a ausência de censura moral nas suas histórias.
Trata-se aqui, como na psicanálise, (e na cura chamanística), de propiciar uma transformação interior, consistindo numa reorganização estrutural da personalidade: trata-se de recuperar a capacidade amorosa do sultão. Pois bem, Sheherazade, como na transferência, propicia ao sultão que reviva com ela uma experiência afetiva continuada e para isso ela precisava de tempo (a saber: 1001 noites -o tempo de uma terapia?) e assim resgata sua capacidade afetiva.
Falei em paralelo com a psicanálise. Mas trata-se aqui de um paralelismo que, evidentemente, não exclui as diferenças. Pois há em "As 1001 Noites", como aparece em Platão, como sugere W. Benjamin, uma ligação entre a fala e o gesto, entre a voz e a carícia. Não nos podemos esquecer de que as narrativas de Sheherazade se seguiam às suas noites de amor com o sultão  e são suas histórias que lhe facultam a possibilidade de dormir próxima noite com ele. É a narrativa que possibilita o encontro futuro. Já se disse que se Sheherazade tivesse oferecido ao sultão só o seu corpo, ela teria sido executa­da, logo após a primeira noite: foi o que, todas as suas antecessoras fizeram, e todas pereceram. E Sheherazade salva não apenas a si própria e a todas as mulheres em idade de casar do seu povo: ela salva também o sultão: ela o cura de sua ira patológica e assassina, e possibilita a ele uma descendência. A persistir no seu plano cruel e ginecida, o sultão se privaria para sempre de amar, e de filhos. Sheherazade oferece a ele o tempo e, junto com as suas histórias, a História; oferece a ele o tempo, e, junto com ele, as coisas todas que dele precisam para se engendrarem: os filhos, a duração do afeto, a permanência de vínculos, o longo processo (analítico) de uma cura. Sheherazade oferece ao sultão um discurso vivo.
Sheherazade ou do poder da palavra. A sultana era uma contadeira de histórias, não em primeira linha uma escritora: ela as contava de viva voz. Aquelas 1001 noites eram marcadas pela cálida proximidade da 'mulher, da mulher na sua inarrável corporeidade. Não podemos esquecer da carga corporal que a palavra falada carrega. Na narrativa oral, a Palavra é corpo: modulada pela voz humana, e portanto carregada de marcas corporais; carrega­da de valor significante. Que é a voz humana senão um sopro (pneuma: espírito...) que atravessa os labirintos dos orgãos da fala, carregando as marcas cálidas de um corpo humano? A palavra oral é isso: ligação de sema e soma, de signo e corpo. A palavra narrada guarda uma inequívoca dimensão sensorial.
"No princípio era a Ação", diz o Fausto de Goethe. Mas entre a Ação e a Palavra, em "As 1001 Noites" a escolha está feita. "No princípio era o Verbo", parecem dizer-nos elas, retomando o início do texto do mais visionário dos Evangelistas. No entanto, esse texto não para aí: "...e o Verbo se fez carne": restaura-se, assim, a dialética sema/soma, inscrita no cerne da palavra  a Palavra é também, inapelavelmente, corpo.

Notas
1. Utilizo aqui basicamente o texto de Antoine Galland (1717), em edição Garnier , 1965, recorrendo também por vezes, ao texto de Mardrus (1899), publicado por Ro­bert/Laffont, Paris, 1985.
2. Cf. Gilbert Lescault -"Fi­gurées, Défigurées (Petit Vocabulaire de la Féminité Représentée)", Union Générale d'Editions, Paris, 1977, em que, no vocábulo "Fileuses" são elencadas várias mulheres mitológicas que lidam com o fio.
3. Freud: "A Feminilidade", Conferência 33 das "Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise", 1933, vol. 22 das "Obras Completas", Imago, pág. 162. A referência a esse ensaio foi sugerida pela leitura de Gilbert Lescault: "Figurées, Défigurées", op. cit.
4. "Narrar e Curar", Folhetim, S. Paulo, 1 de setembro de 1985.
5. "Erzaehlung und Heilung", in "Gesammelte Schriften", vol. 4, Suhrkamp Verlag, pág. 430.
6. Cf. capítulo "L'Efficacité Symbolique", in "Anthropologie Structurale", Paris, Plon, 1958, págs. 211 e seguintes.
7. Cf. J. L. Borges -"Los Traductores de las 1001 Noches", in "Historia de la Eternidad", Emecé Editores, Buenos Aires, 1953.

Publicado no caderno Folhetim/Folha de São Paulo, em sexta-feira, 29 de janeiro de 1988
ADÉLIA BEZERRA DE MENEZES é professora de Teoria Literária na Unicamp. autora de A Obra Crítica de Álvaro Lias e Sua Função Histórica" (Vozes) e "Desenho Mágico: Poesia e Política em Chico Buarque" (Hucitec)