"Que te devolvam a alma homem do nosso tempo. Pede isso a Deus ou às coisas que acreditas: à terra, às águas, à noite desmedida. Uiva se quiseres, ao teu próprio ventre se é ele quem comanda a tua vida, não importa... Pede à mulher, àquela que foi noiva, à que se fez amiga. Abre a tua boca, ulula, pede à chuva. Ruge como se tivesses no peito uma enorme ferida, escancara a tua boca, regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA." (Hilda Hilst)

09/01/2009

Conjugando o olhar serpenteante de Tirésias ao fogo criador de Hefesto












Olhando para uma foto tirada no Natal de 2007 (veja acima), curiosamente me deparei com uma imagem no espelho ao fundo, que se assemelha a uma mulher com um vestido branco andando num campo ou numa praia, e pode até ser que tenha alguém vestido de preto ao seu lado... é claro que cada um vê com os seus próprios olhos, e nem todos concordariam que uma mulher se presentificou nesse exato momento, como um reflexo no nespelho, dando notícias de uma realidade paralela (que pode ser apenas a dimensão da imaginação, porque não? Porque não considerar o imaginário como uma das dimensões da realidade?).

Da mesma forma, caminhando pela praia de Ubatuba na noite de lua cheia de 30/12/2008 (mas não estava com minha máquina!), vi na areia molhada do mar o reflexo das estrelas, e isso todos veriam e concordariam que é uma imagem real... mas sabe quantas pessoas olham para o chão à procura de estrelas, e se encantariam diante da magia natural de um céu que se deita na areia da praia, e ainda veriam nisso a possibilidade de uma mensagem cifrada do Universo, prenunciando a realização de sonhos (estrelas podem ser associadas simbolicamente aos nossos sonhos, e o chão à nossa realiadade)? Só os poetas, os artistas, os visionários... apesar de todos poderem enxergar essa imagem, nem todos se disporiam a vê-la para além dos olhos do corpo, com os olhos da alma... E Para as pessoas do tipo psicológico Intuição, que é o meu caso (e que muitas vezes são os visionários e artistas em todas as culturas), o que vemos com esse olho que não o do corpo nos parece, na maior parte das vezes, tão ou mais real do que o que está concretizado diante do nosso olhar... (e ai de nós se Dioniso não vier ao nosso encontro para nos redimir!)




“Mas é de noite, quando a alma vigia
e um olho, que não o do corpo,
espia.
(...)
A humilhação me prostra,
meia-noite, meio da vida a pino,
a cova, a mãe, o grande escuro é Deus
e forceja por nascer da minha carne.”
(Adélia Prado)



Personagem da mitologia grega, Tirésias simultaneamente torna-se cego e ganha o dom da mantéia (adivinhação). Sua cegueira aparece conjugada com um tipo de visão peculiar: “trevosa”, “noturna”, “ímpar”, “unificadora”. A vidência corresponde à visão “de dentro para fora”, “das trevas para a luz”, de acordo com Junito Brandão, pois costumamos associar o ato de ver à capacidade de focalizar objetos, destacando-os de um fundo, para a qual precisamos dos dois olhos abertos e da luz incidindo sobre esses objetos (visão “diurna”, “par”).

A cegueira/vidência de Tirésias tem origem em seu processo iniciático. Ao subir numa montanha e defrontar-se com um casal de cobras copulando, Tirésias mata a cobra fêmea, tornando-se, por isso, mulher, voltando a ser novamente do sexo masculino quando, sete anos mais tarde, encontrando-se numa situação similar, mata a cobra macho. Por ter a experiência dos dois sexos, foi chamado a dar sua opinião diante da questão levantada numa discussão entre Hera e Zeus (se era o homem ou a mulher que tinha mais prazer numa relação sexual). Citando Junito Brandão:

“A visão de Tirésias, etimologicamente , o que tem a capacidade de visão, é a visão de dentro para fora, por isso é mantis. Diga-se de passagem, que, de maneira muito constante, a mântica está relacionada com a serpente, réptil ctônico por excelência e, por isso mesmo, em comunicação com o mundo de baixo, depositário muito antigo da adivinhação.”... “Acrescente-se, por fim, que a cegueira atribuída a numerosos videntes, de Tirésias a Orfeu, ( ... ) está acoplada à esfera da mântica ctônica, trevosa. Vê-se, adivinha-se de dentro ara fora, das trevas para a luz...”

A simbologia das duas cobras copulando pode ser associada à Uroboros, serpente que come a própria cauda, símbolo da totalidade e do Caos primordial (presente em diversas culturas) em que os opostos estão indissoluvelmente unidos:

“A Uróboro também é símbolo da manifestação e da reabsorção cíclica; é a união sexual em si mesma, auto-fecundadora permanente, como o demonstra a cauda enfiada na boca; é transmutação perpétua de morte em vida, pois suas presas injetam veneno no próprio corpo (...) é sem dúvida a mais antiga imago mundi negro-africana, em que, com sua linha sinuosa, associando os contrários, ela encerra os oceanos primordiais no meio dos quais flutua o quadrado da Terra.”

(Chevalier e Gheerbrant)


Segundo a Picologia junguiana, a consciência nasce e se estrutura a partir do Caos inconsciente, através da vivência e elaboração de símbolos. A consciência discrimina e separa os opostos para poder conhecer e entrar em contato com os diversos aspectos da realidade. Por ser focal, ao iluminar determinados aspectos, destacando-os e discriminando-os do todo, ela cria sombra (da mesma forma que acontece quando um foco de luz incide sobre um objeto).

A sombra representa o que não queremos, não aguentamos ou não conseguimos enxergar. Tendemos a projetá-la no outro, que passa a ser depositário dos nossos “outros eus”, lançados para fora de nós e quase sempre rejeitados. Uma das características da sombra, quando projetada, é a de gerar uma forte reação de repulsa, ódio ou abominação diante do que não queremos ver em nós mesmos. Quando a sombra é iluminada e assimilada pela consciência, favorece a criatividade e a equilibração psíquica. A sombra é também o desconhecido, o inconsciente. A consciência é sempre unilateral (só consegue enfocar um aspecto de cada vez) e necessita estabelecer relações significativas com o outro e com o inconsciente para poder ampliar-se.

Tirésias nos propõe inverter a ordem “diurna”, consciente (pois simbolicamente as “trevas” são associadas ao desconhecido e a luz à consciência), e ver o mundo com outros olhos, a partir de um novo ponto de vista. Vendo o mundo de “dentro para fora”, desestabiliza as nossas concepções anteriormente constituídas. Diante dessa proposição, podemos não encontrar, de antemão, referenciais para nos situarmos com relação a essa nova experiência, o que pode gerar sentimentos de angústia e medo.

A visão de Tirésias tinha um caráter peculiar: ele agia, para seus consulentes, como um espelho que refletia a face oculta, velada, de suas personalidades; ele trazia à tona as tramas invisíveis do Espírito, do desconhecido em nós, o que sempre provocava algum tipo de reação. Toda revelação instaura um novo foco ao redor do qual as experiências e expectativas se reorganizam, deflagrando um processo de transformação das relações eu-outro, eu-mundo, a partir de uma ampliação de consciência.

Crono, ao receber a revelação de que um dos seus filhos o destronaria, passou a engoli-los. No entanto, o oráculo só denunciou o caráter devorador, voraz, de qualquer padrão ou princípio ordenador que se pretenda absoluto e perpétuo, não abrangendo com isso a possibilidade e necessidade de reovação periódica. Talvez, e muito provavelmente, Crono, não suportando a visão de sua ambição desmedida pelo poder, engolisse seus filhos para não confrontar-se com os aspectos sombrios de seus desejos.

Muitas vezes agimos como Crono quando nos deparamos com o caráter estranho e inusitado do novo. O novo assusta, não só por ser uma ameaça de destruição ao que já tem nome e forma, não só pelo prenúncio de uma futura mudança, mas por já instaurá-la. O novo, como um recém-nascido, denuncia a nossa própria fragilidade ao lidar com realidades inusitadas. O novo assusta por conjugar morte e vida numa única experiência: o destronamento de Crono é concomitante, e não posterior, à geração e ao nascimento de seus filhos - é o próprio futuro tornado presente e trazendo o desmanchamento do passado que lhe deu origem. Engolir os filhos é como uma tentativa de se apossar do fluxo vital, tentativa vã: estancar, aprisionar, pode trazer pode trazer a ilusão de completude, ao preço de ser capturado pelas próprias ansiedades e medos, e o ser dobrar-se sobre si mesmo como ácido corrosivo.

A cegueira/visão de Tirésias, portanto, se nos apresenta como um símbolo com o qual podemos nos disponibilizar a interagir (ampliando a nossa consciência), ou diante do qual podemos ter uma reação de repulsa, medo, negação ou idealização como forma de fugirmos ao confronto com o que nos causa estranheza.

Na mitologia de vários povos, a cegueira aparece conjugada com a vidência. Aparentemente, a cegueira de Tirésias é fruto de um castigo (imposto por Hera) e sua vidência uma compensação (concedida por Zeus). No entanto, um olhar mais aprofundado revelará que ambas são contingências de um processo iniciático, e, portanto, correspondem à expressão de um momento existencial, a uma determinada qualidade de experiência. Um olhar prospectivo nos mostraria então que existe nesse binômio (cegueira/vidência) uma especificidade do ser a ser apreendida e compreendida, um determinado posicionamento diante de si próprio e do mundo. E como somos limitados por natureza e por nosso aparato psíquico não nos permitir abarcar a totalidade dos fenômenos, necessitamos, enquanto corpo social, que outros nos falem do que vivem e percebem a partir de seus pontos de vista, da mesma forma que nos vemos no e através do olhar do outro.

Precisamos estar em contato com os nossos “outros eus” para que a complexidade e riqueza da nossa existência caleidoscópica e multifacetada possa ser abarcada e contemplada. Muitos iam ao encontro de Tirésias para lhe perguntar o que ele estava vendo lá de onde ele estava, e da mesma forma Tirésias, através dessas pessoas, saía de sua caverna. E esse encontro e essa troca só era possível porque havia familiaridade entre Tirésias e seus consulentes, ambos eram seres humanos e passavam por experiências de vida semelhantes, paradoxalmente.

Nos mitos, encontramos frequentemente o binômio deficiência/eficiência, como em Hefesto, que é um deus coxo. Há duas versões para a origem do defeito físico de Hefesto. Em uma delas, Hera, indignada pelo fato de Zeus ter gerado sozinho a sua filha Atená (deusa da sabedoria, que nasceu a partir da cabeça de Zeus, já mulher feita, com 21 anos), decidiu também gerar por conta própria um filho: Hefesto. Só que Hefesto teria nascido com os pés tortos e, como mancava, Hera, sentindo-se humilhada, o rejeita, lançando-o do Olimpo abaixo. Em outra versão, durante uma discussão entre Zeus e Hera, Hefesto toma o partido da mãe e diante disso Zeus, enfurecido, pegou Hefesto por um de seus pés e o atitou fora do Olimpo, e com o tombo Hefesto teria ficado aleijado e manco.
Em ambas as versões, após ser atirado, ele rola pelo espaço durante todo um dia, e depois é acolhido: na primeira versão, ele cai na olha de Lemnos e é recolhido pelos habitantes da ilha; na segunda, ele cai no mar, sendo recolhido por Tétis e Eurínome, que o acolhem durante 9 anos numa gruta no fundo do mar, onde ele, num processo iniciático, aprendeu a forjar o ferro, o bronze e os metais preciosos, tornando-se, segundo Junito Brandão, "o mais engenhoso de todos os filhos do céu", forjando os instrumentos de guerra e as jóias dos deuses.

Junito conta que Hefesto chegou a forjar um trono de ouro para ela, mas que na verdade era uma armadilha: ao sentar-se nele, Hera não consegue mais sair de lá, e é Dioniso quem, com o seu vinho, embraga Hefesto e consegue levá-lo de volta ao Olimpo para desatar a mãe desse trono, e com isso Dioniso o ajuda a dissolver a margura decorrente da rejeição e do abandono, tornando-o apto a ter uma esposa - diga-se de passagem que Hefesto foi marido de Afrodite (exigiu isso para libertar Hera de seu trono), a própria deusa do amor e da beleza, nada menos que isso!!!

Hefesto canaliza o seu fogo para a criatividade e a cura. Torna-se também o deus dos nós, o que lhe conferia poderes mágicos, sendo portanto o "xamã do Olimpo", de acordo com Brandão. Em várias mitologias, são os Deuses-Ferreiros ou os ferreiros divinos que forjam o raio e o relâmpago usados pelos deuses. É também um deus-ferreiro que entrega ao Deus-Trovão as armas com que ele vence o monstro – o Dragão aquático ou a serpente, criando e organizando o mundo (segundo Mircea Eliade). A imagem do ferreiro aparece, em diversas culturas, intimamente relacionada a rituais de cura e de iniciação, ao canto e dança e às construções em geral.

Tanto em Tirésias quanto em Hefesto encontramos a conjugação dos opostos deficiência/eficiência, talvez mostrando que nunca se é só uma dessas coisas: o “deficiente” ou o “eficiente”. Além disso, há sempre uma trama de significações abarcando a totalidade dessa vivência, que geralmente vem relacionada a um processo de iniciação, onde se sacrifica determinado aspecto ou modo de existir para a aquisição de novas formas de ser e estar em relação.

No nosso cotidiano, ao elegermos um desses opostos como desejável, aceitável, invejável, e o outro como desprezível, indesejável, inaceitável, criamos uma disparidade que limita e compromete a nossa percepção e possibilidade de compreensão de nós mesmos e do mundo que nos cerca, dando margem ao estabelecimento de relações assimétricas, que podem tornar-se opressoras e segregadoras, e à criação e perpetuação de mecanismos de exclusão e abandono do que não desejamos em nós ou para nós, ou do que consideramos como “elemento estranho” à nossa constituição.


“... deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; ... , receei ficar mais tempo e enlouquecer.”

(Machado de Assis)


O diferente, depositário, através desse tipo de atitude, da sombra individual ou coletiva, fica sujeito ao preconceito e à estigmatização, a não ser aceito e reconhecido como parte da humanidade e do corpo social (podendo ser visto como um “câncer” a ser extirpado ou uma “aberração” a ser encoberta, escondida). Isso pode acarretar, para o diferente uma auto-imagem distorcida, dificultando sua auto-aceitação e gerando por vezes sentimentos de vergonha, culpa e de desvalorização.

Ele pode então passar a afastar-se do convívio social e das relações mistas (por temer ser rejeitado), isolando-se e impondo-se a exclusão de “dentro para fora”. Pode aceitar e incorporar o papel de “bode expiatório”, passando a ver-se como o que carrega a falta, o defeito, os “males”, às vezes impondo-se um esforço sobre-humano para destacar-se em algum setor como compensação do que considera como uma “falta”, ou tendo suas conquistas hiper-valorizadas, como se decorressem de um ato heróico (o que é consequência de uma desqualificação e desvalorização de suas capacidades). O diferente pode também colocar-se no lugar da vítima a ser imolada, talvez no desespero de, pelo menos assim, encontrar um lugar, reconhecido pelo outro, para habitar. Outras vezes, pode incorporar o estigma “ao avesso”, agregando-se a guetos em que a união entre os membros pode basear-se e consolidar-se através da oposição àqueles que os estigmatizam.

Em todas essas atitudes, tanto por um lado (da normalidade) quanto por outro (das diferenças), o diferente é visto como um “elemento estranho”, dissonante, sendo desterritorializado, desqualificado e muitas vezes despido de seu caráter humano (“coisificado”), sendo considerado pelo senso comum como aquele que deve ser banido, escondido ou rechaçado.


“Há muitas formas de se tratar anomalias. Pela via negativa, podemos ignorá-las; simplesmente não percebê-las e, se as percebemos, podemos condená-las. Pela via positiva, podemos deliberadamente confrontar a anomalia e procurar um novo padrão de realidade no qual ela tenha lugar."

(Mary Douglas)


Todo símbolo, por ser uma criação conjunta entre a consciência e o inconsciente, contém aspectos conhecidos e desconhecidos. Se não houvesse nos símbolos algo que pudesse ser reconhecido pelo ego, não haveria material com o qual a consciência pudesse se relacionar para integrar em sua esfera os aspectos novos e desconhecidos veiculados por eles. O símbolo, dentro da abordagem junguiana, não é um disfarce ou simulação de uma realidade outra, mas um elemento revolucionário, desestabilizador, na medida em que traz o novo, o que não se enquadra nos moldes já constituídos pelo ego, movendo-o em direção à busca de novos significados e de referenciais mais amplos.

O contato com o símbolo desorganiza o status quo consciente, o que pode ser vivenciado, num primeiro momento, como uma ameaça à integridade psíquica, pois traz à tona a urgência de renovação e resignificação, definindo o eu e o outro, e as contingências que os envolvem, a partir de novas bases.

Podemos pensar que o contato com o diferente, assim como todo confronto com um novo símbolo, faz emergir questões que desestruturam em algum nível os referenciais do ego (que tem uma certa tendência à inércia e ao conservadorismo) podendo despertar reações ambivalentes, como as de ataque e fuga, atração e repulsão. Pois essa é uma vivência que envolve a percepção de novas possibilidades existenciais, o que mobiliza a reformulação de ideais, expandindo os contornos da experiência inter e intra-subjetiva.

Será que ainda precisamos perpetuar rituais como os do bode expiatório para nos desvencilharmos das vivências terroríficas, ameaçadoras ou simplesmente inusitadas desencadeadas pelo espelhamento-projeção de nossa sombra nos aspectos não familiares e rejeitados (ou valorizados negativamente por nossa cultura)? Ou poderemos ser mais criativos e humanos, criando espaços em que o contato com os aspectos sombrios ou desconhecidos do ser possa ser vivido construtivamente, ao invés de defensivamente?

Se a diferença/deficiência gera uma reação emocional tão intensa nos que entram em contato com ela é porque no “estranho” e inusitado existe algo de familiar, de alguma forma as pessoas, em algum nível, se reconhecem nele. Sendo assim, os mecanismos de exclusão do diferente também nos apartam de aspectos relevantes de nossa constituição como pessoa e como humanidade, significando sempre uma perda, um empobrecimento.

Tanto Tirésias quanto Hefesto possuem as marcas de quem foi além de si mesmo. Ambos transcenderam e conjugaram criativamente as polaridades. Mostraram aos homens e aos deuses que não existe trevas sem luz, deficiência sem eficiência. Ambos, Hefesto e Tirésias manejavam uma determinada espécie de fogo: Tirésias transmuta o fogo dos desejos, da libido, em “luz-consciência”, simbolizando uma subida em direção ao significado. Hefesto, cujo nome significa: "o que incendeia a água" (segundo Junito Brandao em seu Dicionário Mítico-etimológico), por outro lado, é um deus que, atirado à terra, trabalha no interior de um vulcão, utilizando o fogo celeste para acelerar os processos da natureza, como um alquimista, dando forma e visibilidade aos atributos divinos e insuflando o sopro-fogo criador na matéria. Ambos transcenderam e conjugaram criativamente as polaridaes.

"Deus coxo e artífice genial, Hefesto carrega em si a contradição entre a perfeição e o erro, inconcebível em uma divindade, mas inerente à natureza dos seres humanos." (Ana Maria Cordeiro e Victor Palomo, no livro: Mitologia Simbólica)


Ambos mostraram aos homens e aos deuses que não existe trevas sem luz (os pintores sabem disso muito bem!), feiura sem a beleza para lhe fazer o contraponto (Hefesto casado com Afrodite!), deficiência sem eficiência, vida sem morte, morte sem renascimento, consciência sem inconsciente, ... e que o mundo fica mais bonito, amplo e iluminado se conseguimos conceber todos esses atributos como igualitariamente participantes e atuantes na constituição do ser.

Podemos recorrer à habilidade artística de Hefesto, ao seu fogo criador, e conjugá-la com a profundidade da visão serpenteante, reveladora e auto-reflexiva de Tirésias para criar espaços de convivência e trocas significativas entre as diferenças, possibilitando o exercício da alteridade. (E o trabalho em Arteterapia e com Oficinas de Cratividade pode e ser um desses espaços!). Pois é só através da disponibilização para a troca significativa com o outro, da abertura para conciliar os opostos e conjugá-los amorosamente (com a ajuda de Eros) que os antagonismos podem ser superados através da criação de paradigmas mais amplos e flexíveis que regulem e permeiem as relações.


“Eros...traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda a existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros busca superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade.”
(Junito Brandão)

3 comentários:

Anônimo disse...

PATRICIA,
PROCURANDO MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A MÂNTICA DE TIRÉSIAS, APÓS LER SOBRE O MESMO NAS OBRAS DO QUERIDO PROF. JUNITO BRANDÃO, DEPARO-ME COM ESTE SEU BELO, SENSÍVEL, REFLEXIVO E BRILHANTE TEXTO... PARABÉNS!
ATUALMENTE FAÇO A FORMAÇÃO ANALÍTICA JUNGUIANA NO INST.JUNGUIANO DA BA., TAMBÉM PSICÓLOGA E ASTRÓLOGA...
UM ABRAÇO,
MARIHITTA COCENTINO

Patrícia Pinna Bernardo disse...

Fico feliz Marihita que tenha gostado do texto! me mande o seu e-mail para ficarmos em contato e eu te avisar de outros textos recentes!!! Bjs!

Ya'el bat Yossef disse...

Profundo esse texto que nos leva a refletir sobre os tantos "eus" que nos alimentam e nos assombram e que ao mesmo tempo fazem com que cada ser humano seja tão único! Parabéns. Um grande abraço.