"Que te devolvam a alma homem do nosso tempo. Pede isso a Deus ou às coisas que acreditas: à terra, às águas, à noite desmedida. Uiva se quiseres, ao teu próprio ventre se é ele quem comanda a tua vida, não importa... Pede à mulher, àquela que foi noiva, à que se fez amiga. Abre a tua boca, ulula, pede à chuva. Ruge como se tivesses no peito uma enorme ferida, escancara a tua boca, regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA." (Hilda Hilst)

29/11/2010

A Mulher, a Consciência Lunar e a Coniunctio


Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher
que ao vê-la nua no quarto
pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde:
os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
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O homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
(Bruna Lombardi)
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Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime

dela ser uma mulher que goza
você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa
Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos

e já não teme nada
retorna inteira,
maior, mais larga
absolutamente poderosa.
(Bruna Lombardi)
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"Nos rituais e nos cultos, a espera e a expectativa são idênticas ao ato de circundar e a circum-ambulação. (…). De maneira semelhante, nos mistérios primordiais da mulher, ou seja, no processo de ferver, cozer, fermentar, assar, o amadurecimento, “o ponto”, e a transformação estão sempre ligados com um período de espera. O ego da consciência matriarcal costuma permanecer quieto até que o tempo seja favorável, até que o processo esteja completo, até que o fruto da arvore lunar tenha amadurecimento e ficado como uma lua cheia, isto é, até que a compreensão tenha nascido do inconsciente. Porque a lua não é somente senhora do nascimento, mas também, enquanto arvore lunar e arvore da vida, um crescimento em si, “o fruto que gera a si mesmo”.
(…)
Mas esse simbolismo feminino não para aqui, porque o que entrou tem que “vir a luz”. A frase “vir à luz” expressa maravilhosamente o duplo aspecto da consciência matriarcal, que experimenta a luz da consciência como a semente que brotou.
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O tempo qualitativo matriarcal é sempre uma ocorrência única e singular, como uma gravidez, em contraste com o tempo quantitativo da consciência patriarcal. Porque, para a consciência patriarcal de ego, todas as subdivisões do tempo são iguais; mas a consciência matriarcal aprendeu, a partir do ritmo do tempo lunar, a conhecer a individualidade do tempo cósmico, senão a do ego. A singularidade e a indestrutibilidade do tempo são consteladas aos olhos daqueles preparados para perceber o crescimento das coisas vivas, capazes de experimentar e de perceber a gravidez de um momento e a proximidade de um nascimento. (…).
Em conseqüência, a linguagem do simbolismo situaria, como regra, a consciência matriarcal não na cabeça mas no coração. Aqui, entendimento significa também um ato de sentimento inclusivo e freqüentemente esse ato – como, por exemplo no trabalho criativo – tem que ser acompanhado da mais intensa participação afetiva, se é algo que deve sobressair-se e lançar luz. (...)
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Não é sob os raios causticantes do sol mas na fria luz refletida da lua, quando a escuridão da inconsciência atinge sua plenitude, que o processo criativo se completa: a noite, e não o dia, é que é o momento da procriação. Esta requer escuridão e quietude, segredo, mudez e ocultamento. Em conseqüência, a lua é senhora da vida e do crescimento em oposição ao sol letal e devorador. O tempo úmido da noite é o tempo do sono, mas também da cura e de recuperação. (…). É o poder regenerador do inconsciente que na escuridão noturna sob a luz da lua executa seu trabalho, um mysterium dentro de um mysterium, trabalhando a partir de si mesmo e da natureza, sem qualquer ajuda do ego cerebral. É por isso que as pílulas e as ervas curativas são associadas à lua e seus segredos guardados por mulheres, ou melhor, pela natureza feminina, que está ligada à lua.
(...)
Tanto para o masculino como para o feminino, a totalidade só é atingível quando, numa união dos opostos, o dia e a noite, o mais alto e o mais baixo, as consciências patriarcal e matriarcal, chegam ao seu próprio modo de produtividade e mutuamente se complementam, fertilizando um ao outro.” (E. Neumann – “A Lua e a Consciência Matriarcal”)

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