"Que te devolvam a alma homem do nosso tempo. Pede isso a Deus ou às coisas que acreditas: à terra, às águas, à noite desmedida. Uiva se quiseres, ao teu próprio ventre se é ele quem comanda a tua vida, não importa... Pede à mulher, àquela que foi noiva, à que se fez amiga. Abre a tua boca, ulula, pede à chuva. Ruge como se tivesses no peito uma enorme ferida, escancara a tua boca, regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA." (Hilda Hilst)



30/07/2009

TUM... tum tum... bate coração! ou: o canto dos beija-flores!

No outro dia entraram 2 beija-flores na minha sacada, cantando e fazendo folia, numa alegre celebração... 2 semanas depois, dando uma aula na Pós em Arteterapia de Ribeirão Preto, novamente 2 beija-flores fizeram cantoria, ao redor de uma árvore florida, e fui ao seu encontro, encantada e atraída pelo seu canto!

Vocês já repararam que o canto do beija-flor é quase um tambor entoando mantras que parecem jorrar de um grande coração? Foi bem isso que Rodrigo captou quando pintou para mim esse tambor (pedi que colocasse 2 beija-flores nele, já que eles tinham aparecido para mim recentemente), que recebi dele no workshop que dei sobre Mitologia africana, máscaras e Arteterapia. Nesse workshop os participantes pintaram máscaras, e eu terminei de pintar uma máscara na qual havia começado a trabalhar junto com os participantes na última aula que dei do curso de Mitologia africana e Arteterapia, no meu consultório, em 2008. E qual não foi a minha surpresa quando, ao colocar a máscara junto ao tambor, percebi que havia uma enorme congruência entre as 2 pinturas, e que eram as mesmas cores -verde e rosa - que estavam tanto na máscara quanto no tambor, e que são as cores do chakra do coração (e Rodrigo fez um coração bem no meio desse tambor, da mesma forma que o timo fica bem no meio do peito)!

Nessa segunda-feira, na aula de Yoga, a minha professora observou que a glândula timo, que fica na região do chakra do coração, e que nos traz sentimentos de profunda alegria e contentamento, pode ser ativada quando batemos com as pontas dos dedos, nessa região, num: TUM... tum tum (como as batidas do coração!)... Essa glândula fica bem no meio do peito, atrás do osso que a gente toca quando diz: "eu", e que em grego - thýmos - significa energia vital. Essa glândula aumenta de tamanho quando estamos contentes, e encolhe quando estamos estressados ou doentes. E a sua ativação aumenta a nossa imunidade (tão preciosa em tempos de gripes e todo tipo de contaminações físicas e mentais a que estamos expostos hoje em dia...) - diante de micróbios ou toxinas, essa glândula reage na hora produzindo células de defesa.

Para ativar o timo, deve-se fechar uma das mãos e dar leves pancadas com os nós dos dedos no centro do peito, no ritmo: uma pancada forte seguida de 2, mais rápidas, fracas... TUM... tum tum... TUM... tum tum...

Com observou a jornalista Sonia Hirsch:

"O detalhe curioso é que o timo fica encostadinho no coração, que acaba ganhando todos os créditos em relação a sentimentos, emoções, decisões, jeito de falar, jeito de escutar, estado de espírito..."Fiquei de coração apertadinho", por exemplo, revela uma situação real do timo, que só por reflexo envolve o coração. O próprio chacra cardíaco, fonte energética de união e compaixão, tem mais a ver com o timo do que com o coração- e é nesse chacra que, segundo os ensinamentos budistas, se dá a passagem do estágio animal para o estágio humano.

"Lindo!", você pode estar pensando, "mas e daí?".

Daí que, se você quiser, pode exercitar o timo para aumentar sua produção de bem estar e felicidade.

Como? Pela manhã, ao levantar, ou à noite, antes de dormir:

a) Fique de pé, os joelhos levemente dobrados. A distância entre os pés deve ser a mesma dos ombros. Ponha o peso do corpo sobre os dedos e não sobre o calcanhar, e mantenha toda a musculatura bem relaxada.

b) Feche qualquer uma das mãos e comece a dar pancadinhas contínuas com os nós dos dedos no centro do peito, marcando o rítimo assim: uma forte e duas fracas.Continue entre três e cinco minutos, respirando calmamente, enquanto observa a vibração produzida em toda a região torácica.

O exercício estará atraindo sangue e energia para o timo, fazendo-o crescer em vitalidade e beneficiando também pulmões, coração, brônquios e garganta. Ou seja, enchendo o peito de algo que já era seu e só estava esperando um olhar de reconhecimento para se transformar em coragem, calma, nutrição emocional, abraço.Ótimo, íntimo, Cheio de estímulo. Bendito Timo."

Jung explica, e a nossa alma agradece poder ser ecoada pelo reverberar do tecido cósmico que nos conecta sincronicamente ao coração do Universo - e aí a tal gripe é que se cuide!!! Pois como a amorosa e sábia Lua disse para uma estrelinha que não queria sair de casa durante a noite e ficava deitada em sua cama vendo televisão, com medo do escuro (num livro infantil: Medo do escuro - qualquer semelhança com pessoas escondidas dentro de suas casas, assistindo aos noticiários, e aulas canceladas por conta do medo de contágio não é mera coincidência...): "Viu? quanto mais você brilha, mais o escuro vai para longe de você... o escuro é que foge da luz!"...

Não esquecendo-nos, é claro, do que diziam os alquimistas: "quando vires o negro, alegra-te, é o início de tua obra", ou dizendo em outras palavras: nesse momento em que a escuridão da alma em seu não reconhecimento pela consciência coletiva (que esqueceu-se de honrar o Grande Mistério e a força da Vida, do Feminino ancestral) se presentifica de maneira trágica no mundo exterior, nos ameaçando com suas garras invisíveis, nunca foi tão urgente tomar consciência da centelha divina que nos faz humanos, "divinamente humanos em nossa destinação de ser" (como disse Marcos Ferreira Santos), e acender-se (trazendo a nossa estrela para passear pelas noites da alma, iluminando-a a partir de dentro), tecendo um sol exalando manhãs que descortinarão assim novos horizontes existenciais, para que das sombras contaminadas pela rotina exaustante de exterioridades sem recônditos ou abrigos onde a nossa alma possa respirar e reencontrar-se consigo mesma e sua beleza, territórios que ela possa habitar, possa brotar, como um lótus, uma consciência ampliada de que somos mais - infinitamente mais!!! - do que supõe a nossa ciência adoecida, herdeira da inquisição... Pois como disse Jung no filme Matter of Heart: “A regra psicológica diz que quando uma situação interna não é conscientizada, ela acontece fora, como destino”

O escuro foge da luz, e ao mesmo tempo, a luz nasce do escuro (é na noite que a estrela encontra-se com a sua luz!) - eis o grande enigma a ser decifrado pela alma humana em seu processo de alquimia interior, de individuação... e como disse Oswaldo Montenegro em seu poema Metade: "que a Arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba"...

“Fixei meu coração num ponto e o beija-flor dentro do
guerreiro que há em mim abriu esse coração. Que o seu
coração possa se abrir e que nada lhe pareça impossível.
Há um tempo para ler livros, para ser desafiado por
novos “insights”e histórias da alma, e há um tempo para
abandonar os livros. A vida está no tempo certo ou tempo
sincrônico. No momento certo, quando você estiver
preparado para receber o elixir, que um beija-flor possa
entrar em sua casa através de uma janela ou porta e que
você possa ultrapassar o véu para um outro mundo de
quadros tecidos.” (Foster Perry)

24/06/2009

MInha programação de cursos julho e seg semestre 2009

MINI CURSOS JULHO 2009



A PSICOLOGIA DE C.G.JUNG:
EGO, ARQUÉTIPO E INDIVIDUAÇÃO

(8 hs/a)

Como a teoria junguiana é bastante complexa e ampla, nesse mini curso serão abordados os conceitos fundamentais da Psicologia Analítica de C. G. Jung a partir da apresentação e discussão de trechos do filme: Matter of Heart, em que o próprio Jung, seus colaboradores (como Marie-Louise von Franz e Aniela Jaffé, entre outros), e alguns de seus pacientes fazem colocações importantes sobre a teoria e o método junguiano e suas implicações.
Ao longo do curso, serão feitas também correlações entre os conceitos junguianos e como trabalhá-los através de recursos arteterapêuticos.

Quando:
TURMA I: 9 de julho, das 9 às 18 hs

TURMA II:16 e 17 de julho, das 18 às 22hs

Investimento:170,00
Local: Rua Ministro de Godói, 1267, Perdizes - SP
Tel: 3862-2411
Informações: pelo e-mail: pat.pinna@uol.com.br

Inscrições: preencha a ficha de inscrição (no final dessa postagem) e retorne pelo e-mail acima para garantir a sua vaga!

MITOLOGIA AFRICANA, MÁSCARAS E ARTETERAPIA
(8 hs/a)

“O Orixá participa da natureza, interna e externa ao homem, uma vez que o ser humano faz parte do contínuo da natureza... A natureza é a morada dos deuses... Se a natureza é um lugar sagrado, tudo passa a ser sagrado, uma vez que tudo é natureza. (...) Os Orixás não estão no barracão, eles estão na natureza e na psique ... e onde houver natureza e psique, aí eles estarão.” (Zacharias)

Nesse curso abordaremos a interpretação simbólica da mitologia dos orixás, correlacionando-os com forças arquetípicas atuantes na psique do ser humano, e trabalhando sobre a mitologia pessoal através da confecção de máscaras.
Associando a utilização de recursos expressivos à narrativa de mitos podemos promover a elaboração de questões existenciais eluciadadas pelas mitologias dos diferentes povos, convidando as forças arquetípicas representadas pelos seus personagens a participar da nossa vida, enriquecendo-a.

Quando: 18 de julho, sábado, das 9 às 18hs

Investimento:170,00
Local: Rua Ministro de Godói, 1267, Perdizes - SP
Tel: 3862-2411
Informações: pelo e-mail: pat.pinna@uol.com.br
Inscrições: preencha a ficha de inscrição (no final dessa postagem) e retorne pelo e-mail acima para garantir a sua vaga!


PROGRAMAÇÃO SEG SEMESTRE 2009:


PSICOLOGIA JUNGUIANA E ARTETERAPIA:
SONHOS, CONTOS DE FADAS E INDIVIDUAÇÃO

Nesse curso, que é vivencial e teórico, trabalharemos os principais conceitos da teoria junguiana, fundamentando a utilização de recursos arteterapêuticos no trabalho com sonhos e contos de fadas, promovendo com isso o processo de individuação.
A partir da amplificação simbólica de contos e mitos podemos ter uma compreensão mais ampla de nossa jornada rumo à individuação, e os nossos sonhos nos revelam em que ponto estamos dessa jornada (também representada no simbolismo das cartas do tarô) e os desafios que estão sendo propostos à nossa consciência para que ela se desenvolva de forma integrada, equilibrada e saudável.

Quando: agosto a dezembro 2009
TURMA I: segundas-feiras (quinzenalmente, 2 aulas por mês, das 9:30 às 12:30 hs)

TURMA II: quintas-feiras (quinzenalmente, 2 aulas por mês), das 13:30 às 16:30 hs

Investimento: 5 parcelas mensais de 140,00

Local: Rua Ministro de Godói, 1267, Perdizes - SP
Tel: 3862-2411
Informações: pelo e-mail: pat.pinna@uol.com.br

Inscrições: preencha a ficha de inscrição (no final dessa postagem) e retorne pelo e-mail acima para garantir a sua vaga!

Coordenação dos cursos:
Patrícia Pinna Bernardo
http://www.patriciapinna.psc.br/

Autora da coleção: A Prática da Arteterapia: correlações entre temas e recursos Vol I: Temas centrais em Arteterapia e Vol II: Mitologia Indígena e Arteterapia: a Arte de Trilhar a Roda da Vida (disponíveis para a venda, por enquanto, somente através do e-mail: pat.pinna@uol.com.br)

Psicóloga (USP) e Artista Plástica (FAAP), Pós-doutora em Mitologia Criativa e Arteterapia (FEUSP), Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), Mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP), arterapeuta e pesicoterapeuta, atuando há 26 anos com crianças, adolescentes e adultos em consultório, escolas e instituições. Professora Universitária em cursos de graduação e Pós há 13 anos (Psicologia, Pedagogia, Artes Plásticas, Musicoterapia, Arte-educação, Arteterapia). Coordenadora e Professora da Pós-graduação em Arteterapia da UNIP. Supervisora de trabalhos clínicos e institucionais, e Coordenadora de Workshops e cursos de Arteterapia, Mitologia e Psicologia junguiana.
Membro associada da AATESP: 056/0905 / CRP: 06/16725

FICHA DE INSCRIÇÃO

NOME:
ENDEREÇO:
TEL RES/COM:
CELULAR:
E- MAIL:
FORMAÇÃO:
ATUAÇÃO PROFISSIONAL ATUAL:
ASSINALE ABAIXO O(S) GRUPO(S) QUE FREQUENTARÁ:

( ) A Psicologia de C. G. Jung - Turma I
( ) A Psicologia de C. G. Jung - Turma II
( ) Mitologia Africana, Máscaras e Arteterapia
( ) Psicologia Junguiana e Arteterapia - Turma I (ago a dez)
( ) Psicologia Junguiana e Arteterapia- Turma II (ago a dez)

16/06/2009

Reflexões sobre Arte (escritas na ocasião do meu mestrado, nos idos de 1990...)



“... Coincidindo o processo de desdobramento da personalidade com o processo de aculturamento, o desenvolvimento corresponderia às necessidades como ser social de, junto à identidade pessoal, adquirir uma identidade cultural (...) no ser, no simples ser - no viver e trabalhar e realizar conteúdos de vida - se encontraria verdadeiramente a fonte da criação, fonte de infinitas e ainda nem sondadas possibilidades humanas no homem.”
(Fayga Ostrower)
Assim como o espaço potencial, na concepção winnicottiana, situa-se numa região fronteiriça e porosa entre o mundo interno e o externo, possibilitando que as experiências se tornem significativas, a atividade artística, ligando a pessoa à cultura, instaura um diálogo fluente entre ambas.
A inserção da pessoa na cultura paradoxalmente só é satisfatória na medida em que sua singularidade e seu estilo de ser, uma vez estabelecidos, puderem conviver em diversos níveis de sintonia com o campo social, o que gera sempre novas questões e deflagra processos de transformação tanto no ser quanto na realidade.
Do mesmo modo que, no jogo, o clima de “faz-de-conta” é necessário ao pleno desenrolar da atividade lúdica, na qual os brinquedos passam a desempenhar funções condizentes com as necessidades psíquicas da criança, os temas elegidos pelo artista durante a execução de sua obra não se resumem a uma reprodução ou cópia do real (mesmo nas obras mais “realistas”), pois eles são apenas pretextos para que determinadas questões estéticas, que estão indissoluvelmente ligadas a questões existenciais, possam ser trabalhadas, dando voz e mobilidade a conteúdos de vida.
O fazer artístico pulsa entre o compartilhar dos valores e paradigmas constituídos e reconhecidos coletivamente e a afirmação do sujeito em sua particularidade de visão e concepções, atribuindo novos significados à realidade e, portanto, também interferindo no mundo em que se vive.

Há um certo patamar de tensão necessário ao exercício da criatividade, que contrapõe e religa, sempre num nível mais abrangente e de maior complexidade, o novo ao já vivido e constituído.
A arte, por um lado, sempre espelhou a visão de homem e de mundo constelada em determinado momento histórico, mas por outro prenunciou mudanças, apontou caminhos e deu forma sensível a anseios, necessidades e possibilidades existenciais ainda não reconhecidas e não atualizadas e contextualizadas.




“A obra de arte é a objetivação sensível ou imaginária de uma nova concepção, de um sentimento que passa, assim, pela primeira vez, a ser entendido pelos homens, enriquecendo-lhes as vivências.”

(Mário Pedrosa)

Tanto na arte abstrata quanto na figurativa, há sempre uma afirmação, interpretação e recriação do homem em sua intrínseca relação consigo próprio, com o outro, com o meio e com o cosmo.
Talvez a arte comece a se tornar irreconhecível para o homem que não encontra ressonância na articulação social da qual participa, sentindo-se mais como uma presa na teia cultural do que como um dos tecelões de sua trama. Diante desse contexto, tende a buscar nas manifestações artísticas ecos de seu pequeno cotidiano ou refúgios que o apartem dele, sendo ambas formas de se afastar de seu nicho existencial, da busca de nexo e sentido para o ser, como se o existir já lhe exaurisse. Mas como disse Pedrosa,
“a obra de arte não pode misturar-se ao cotidiano da vida, equiparada a uma obrigação social que se cumpre, uma farra que se faça, uma violência que se comete, uma frustração que se sentiu.
Por sua própria natureza, ela tem de se afastar do chão onde fazemos nossas andanças.”
Esse afastamento corresponde ao que Pedrosa chamou de “distância psíquica ideal” entre o autor ou espectador e a obra, para que seja possível a fruição estética, a apreensão do fluxo da energia vital por entre as formas, e disso decorre a aproximação das forças criativas no bojo do próprio homem, de seu potencial de vir-a-ser.


A arte moderna, ao deixar de retratar faces “reconhecíveis” do real, entranhou-se pelos intermeios de suas forças constitutivas, colocando o homem frente a frente com sua própria condição existencial, com o seu sentido de humanidade. E isso por uma absoluta necessidade e contingência do mundo atual, em que não se encontram valores e significados coletivos que norteiem e referenciem as experiências humanas. Além disso, a concepção de mundo instaurada pela modernidade revelou que vários processos estão ocorrendo ao mesmo tempo, relativizando e redimensionando as relações entre o homem e seu universo, um universo em contínuo movimento e multifacetado. Diante da multiplicidade de pontos de vista, da ausência de um mínimo de consenso sobre o que é certo ou errado, bom ou mal, desejável ou execrável, diante da contínua edificação e derrocada de mitos, só restou ao homem a possibilidade de busca de sentidos para o viver no interior do próprio ser, no que o diferencia do não-ser, para daí poder ressurgir como pessoa.


“Assim, a temática principal da arte contemporânea gira em torno de questões íntimas, questões existenciais, num amplo leque de sentimentos que vão desde a angústia e o medo, à coragem face ao medo, à resignação, à esperança e, eventualmente, a novos significados humanos encontrados no próprio viver.
A expressão de tais conteúdos não tem que passar obrigatoriamente pela figuração (onde os sentimentos transparecem na representação, e interpretação, de determinados episódios ou situações envolvendo objetos ou figuras). Ao contrário, o sentido fundamental dessas cogitações íntimas se transmitirá tanto mais claramente quanto menos as formas forem circunscritas a acontecimentos do mundo externo ou a simbolismos já convencionados (religiosos ou sociais). A arte abstrata de hoje (e, no fundo, a estrutura formal abstrata de qualquer obra figurativa) expressa estados gerais de ser, estados de consciência."
(Fayga Ostrower)


A arte respira e se torna viva e vivificante na medida em que testemunha e propicia a relação significativa entre a pessoa e a coletividade, favorecendo assim o exercício da alteridade e a ampliação da consciência de si próprio e do mundo. Ela necessita que as polaridades eu-outro sejam inseridas e integradas de maneira significativa e dinâmica no contexto cultural.
O indivíduo que, como disse Ostrower, pôde crescer em seu tempo vital
e ... amadurecer
, integrando-se como ser individual e como ser cultural, podendo exercer o seu “estilo de ser”, vivencia como que um renascimento a partir do útero cultural, atingindo um novo ponto de partida em seu crescimento psíquico, apropriando-se de seu potencial criador e colocando-se como co-autor do enredo de sua vida e de sua época.


“Quando uma pessoa é aberta à vida, sem preconceitos, e receptiva às novas experiências, quando ela é capaz de diferenciar-se e reintegrar-se, de amadurecer e crescer espiritualmente, ela terá condições para criar. Cada um poderá então selecionar intuitivamente, livremente, entre as várias áreas de interesse, aquelas que correspondam às suas reais necessidades e potencialidades, e se sentirá motivado a buscar na linguagem artística, também intuitivamente, certas ordenações que expressem seus sentimentos. Por sua vez, as ordenações manifestas nas formas criadas haverão de revelar as ordenações íntimas da personalidade, em visões talvez desconhecidas antes de terem sido articuladas através dos processos de criação. Deste modo, o fazer criativo sempre se desdobra numa simultânea exteriorização e interiorização da experiência de vida, numa compreensão maior de si próprio e numa constante abertura de novas perspectivas do ser. Reflete o sentido do desenvolvimento da personalidade como um todo, da pessoa vivendo mais plenamente sua vida. É o que constitui essencialmente a motivação criativa de alguém. Este incentivo ao mesmo tempo se renova e aponta certos rumos que se abrem à imaginação"
(Fayga Ostrower)

20/05/2009

Mitologia Indígena e Arteterapia: mais um filhote!!!

"...Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir..."

(Fernando Pessoa / Alberto Caeiro)

Guardei na memória esse trecho de um poema de Fernando Pessoa desde adolescente, e agora ele me faz mais sentido do que nunca...
Escrever sempre foi uma das minhas paixões, e é um imenso prazer poder aliá-la a outra, que nutre a minha alma e ancora os meus passos em minha jornada pessoal: a minha paixão e profunda gratidão à sabedoria ancestral, acessada através da via simbólica, e um dos caminhos para esse acesso é através da Mitologia, e também da Arte, que quando colocada a serviço da Vida se traduz na prática da Arteterapia, título portanto dessa coleção, que acaba de ganhar o segundo volume: "Mitologia Indígena e Arteterapia: a Arte de Trilhar a Roda da Vida"



"Temos muito a aprender com a visão de mundo com que nos brindam os povos indígenas de diversas etnias, mas para isso precisamos nos abrir para novas perspectivas que contemplem e viabilizem a semeadura de sementes de amanhãs condizentes com uma cultura pela paz, guiada pelo respeito a todas as formas de vida, onde a dignidade seja condição de uma vida plena de significado, brilho e amor solidário, trazendo abundância por favorecer uma troca mutuamente fertilizadora entre o eu, o seu semelhante e o entorno (o que inclui tudo o que encontramos na Terra e os astros que nos iluminam a partir do Céu), harmonizando os aspectos materiais e espirituais de nossa constituição como seres humanos, tornando a nossa existência significativa e coroada pela dignidade.
É a partir desse sonho – de uma cultura pela paz, inclusiva e multi-colorida (multi-étnica) – que parto ao propor, criar e recriar trabalhos em que a Arteterapia e as mitologias de diversos povos se entrelacem respeitosa e amorosamente na tessitura de um cesto que possa acolher e amalgamar novos horizontes existenciais, repletos de oportunidade para o nosso crescimento como indivíduo e como humanidade (tanto material quanto espiritual). Esse é um trabalho que busca empreender um diálogo criativo e produtivo da consciência com a dimensão arquetípica ancestral em que se assentam as diversas mitologias, possibilitando assim as sínteses, conjugando conhecimento e auto-conhecimento num trabalho de Ecologia Profunda e de uma Ecopedagogia que integre a dimensão do prazer e a doçura ao ato de entrelaçar ensinar-aprender-crescer-ser, curando-se nesse processo as próprias feridas, bem como a ferida aberta na alma do mundo dilacerado pela separatividade, que reconheça e desenvolva o nosso potencial criador e de co-criar a realidade, enriquecendo de muitas formas a nossa realidade compartilhada.
Hollis (2005) observa que as nossas imagens internas “surgem do mistério que é investido não só o cosmo, mas em cada um de nós”, nos conduzindo a um acesso pessoal e direto aos mistérios, o que “nos deixa menos passivos na presença dos deuses. Nós os convidamos, embora convidados ou não eles estejam presentes. Se não forem convidados, eles virão como patologias” (2005, p. 167). Daí provém o efeito terapêutico de trabalhos que promovam o contato com as forças arquetípicas que nos habitam e que encontramos simbolizadas nas diversas mitologias como deuses e deusas."

(Trecho do capítulo final desse livro, pág. 213-214)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
Os Rituais Ancestrais e o Homem Atual

A ABERTURA A NOVAS PERSPECTIVAS EXISTENCIAIS: INICIAÇÃO, TRANSFORMAÇÃO E RENASCIMENTO
O Chamado
A Travessia
A Iniciação
O Renascimento

A ARTE DE TRILHAR, COM CONSCIÊNCIA E SABEDORIA, OS CICLOS QUE ATRAVESSAMOS AO LONGO DA VIDA
As aberturas e os fechamentos
Acessando e ativando recursos internos

A DANÇA DAS POLARIDADES E OS 4 ELEMENTOS NA RODA DA DOCE MEDICINA
Sol e Lua: A Águia e o Jaguar
A Terra
O Fogo
A Água
O Ar
A Conjunção de Opostos
Lançando ao Universo Sinais de Fumaça...

RETRAMANDO O EU E O OUTRO NA TEIA DA VIDA CÓSMICA
O “Espaço Sagrado”: a Cuia, o Vaso, o Cesto
O Eu, o Outro e a Realidade Multifacetada
A Árvore Psíquica e a individuação

PLANTANDO SONHOS, COLHENDO HORIZONTES

14/02/2009

Trancoso... um lugar onde me sinto em casa!

Escolhi que o meu novo Ano Novo seria em Trancoso... e não me arrependi! Afinal, escolhi ir para lá porque cheguei à conclusão que lá é um lugar onde me sinto em casa, abraçada pelo seu verde e mel, abençoada por Iemanjá, que recebe amorosamente quem a visita por lá vestida com seu lindo manto azul turqueza com rendas prateadas e brancas, espumante reluzência... A beleza de Trancoso enche a minha alma de esperança, e a espelha, me colocando diante de mim mesma, do meu melhor, da minha essência...
Fiquei 10 dias por lá, e como presente trouxe o sol na minha pele, o mar nas minhas veias, alento no meu coração...



RECEITA DE CASA
Uma casa deve ter varandas
para sonhar, cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.
Um amor precisa espaço de voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.
Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
- que é a sua essência.
(Lya Luft)

06/02/2009

Praia do Espelho... mar demais!




MAR DEMAIS

O mar das nossas viagens
divide horizontes e cais,
e nos dois lados acena
a opção de ir ou ficar.
Quem navega, não pensa
em perda nem permanência:
só busca ocaminho das ondas
e do ar.
O mar da esperança é fundo,
quem nele navega é rei:
pois se estrelas são miragem
entre cais e horizonte, cada viagem
chega mais perto da fonte:
isso não se pode medir nem
mudar.

(Lya Luft)


22/01/2009

Tão fácil te querer 2009

Quero um novo Ano Novo, e estou indo buscá-lo!!!
.................................
A minha entrada em 2009, em alguns aspectos, deixou a desejar, e nos primeiros dias de janeiro encontrava-me exausta, não me sentindo preparada para o início de um ano que promete ser muito iluminado, pois é regido pelo Sol... Então eu lembrei que os povos ancestrais decretavam o final do Ano Velho, e faziam um ritual de Ano Novo, sempre que sentiam que era necessária a renovação do Tempo para que o fluxo criativo e saudável da vida pudesse ser restaurado.
Além disso, lembrei também que existem várias entradas para um Novo Ano: o ano novo astrológico começa em março, com a entrada no signo de Áries, e no horóscopo chinês, em 2009 o Ano Novo começará às 0hs do dia 26/1...
E foi o que decidir fazer: estou de saída para a minha comemoração particular de Feliz Ano Bom (numa praia muito especial e mágica, e irei comemorar a entrada do Ano Novo chinês lá! Sei que estamos no Ocidente, mas... o Oriente tem nos trazido muitas contribuições, como a Yoga por ex... e por que não abraçar essa também, diante da necessidade de se dar um novo ponto de partida?). Mas nem por isso ela será menos especial e auspiciosa que qualquer outra comemoração que tenha sido feita nessa virada de 2008 para 2009... E já que numerologicamente 2009 totaliza 2 (2+9=11, e 1+1=2), por que não comemorar a sua entrada 2 vezes?!


Pesquisando sobre os aspectos simbólicos que circundam o ano de 2009, na numerologia (consultei o site do Gilson, que cria mantras muito interessantes), na astrologia e na mitologia dos Orixás, preparei a minha mensagem de boas entradas para os meus amigos e contatos, estendendo-a a todos que entrarem aqui, lembrando-lhes de que sempre podemos nos dar um novo Ano Novo, e lembrando-lhes também da magia de tudo o que é novo, aliando esses "lembretes" ao que Rita Lee expressou em uma de suas frases: "nunca é tarde para se ter uma infância feliz!" (rs)
Que 2009 entre em sua vida com a leveza com que uma criança lança suas bolhas de sabão ao Céu, cada uma delas abrigando um sonho de felicidade... com a sabedoria com que mãos agricultoras lançam suas sementes à Terra, cada uma delas veiculando o poder de criar e alimentar a vida... com a paixão com que amantes se fundem em sua celebração do Amor, unindo Terra e Céu numa coniunctio que banha a realidade com todas as cores do Arco-íris, fecundando desejos que se transformam em caminhos de auto-realização!

Em 2009, lembre-se que:
Do lado de cá fica o lado de lá
(use essa frase como um mantra para conquistar o que parece inatingível, mentalizando o que quer trazer da dimensão dos sonhos para a sua realidade)

Germine os seus sonhos no vaso sagrado do seu coração, regue-os com a água que emana de todas as formas de amor, encontre um lugar na sua vida para que essas sementes criativas possam fazer parte da sua realidade, florescendo em horizontes que se descortinarão em doces e prósperos amanhãs, transmutados, como que por encanto, em "hojes repletos de flores"!!!

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"Todas as preces pedem amor, não importa o que pareçam estar pedindo. A cura é amor, um desejo profundo é amor, a atenção de Deus é amor...
Os desejos tornam-se realidade quando são abrigados silenciosamente no coração.
Não proclame os seus sonhos para o mundo - sussurre-os para o amor."

(Deepak Chopra)

DE-CORAÇÃO... ou: as mudanças necessárias e os rituais de Ano Novo




"Esse é o lugar onde você poderá vivenciar e trazer à luz aquilo que você é e aquilo que poderá ser. Este é um lugar de incubação criativa. A princípio, você até pode achar que nada acontece. Mas se você tem um espaço sagrado e o utiliza, por fim alguma coisa acontecerá."
(J. Campbell)
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Na virada de 2007 para 2008 eu decidi mudar de casa. Eu morava num lugar bastante acolhedor e agradável, em que eu me permiti, durante os 10 anos em que morei lá, pintar eu mesma as paredes utilizando diversas cores, texturas e técnicas. Cheguei até a fazer desenhos com meus dedos numa parede coberta com massa corrida (enquanto ela estava ainda úmida), e a cobrir uma das paredes do corredor com chita! O meu toque pessoal estava presente em cada canto, e por opção eu não tinha na casa nenhum móvel que eu mesma não pudesse deslocar de um lugar para outro. E quando enfim cheguei a uma arrumação e distribuição de cores que me satisfizeram plenamente, tive a consciência de que era hora de mudar de casa...
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Pois é isso mesmo, por mais paradoxal que nos pareça, quando uma coisa está pronta, está morta, e é como o fruto colhido da Árvore da Vida quando concluímos algum ciclo: o saboreamos, extraindo dele o aprendizado e a energia necessária para darmos o próximo passo em direção ao nosso crescimento, e então encontramos dentro dele sementes, que representam projetos e possibilidades que podem e devem ser trazidas à realidade e traduzidas em novas configurações. Morre o fruto, que renasce através de suas sementes. E assim a nossa vida caminha, fresca e cheia de vigor, renovando-se sempre que abrimos espaço ao novo que pede passagem para que ela se recrie, pois o que está vivo está em movimento, em processo de mudança contínua, como um rio que não pode deter o seu curso.
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Então eu me dei conta de que o próximo passo consistia em escolher uma nova morada onde plantar os meus sonhos que, como essas sementes, estavam ali, bem na palma da minha mão, enchendo o meu coração de esperança e de uma nova luz que insistia em se fazer notar e em se presentificar com sua manifestação... Eu precisava agora trazer a minha nova face à tona, e de uma casa que espelhasse o meu novo momento de vida, em que o sol entrasse por todas as janelas e banhasse generosamente todos os cômodos... e que não tivesse muitas paredes! Hoje escrevo a vocês dessa nova casa (inacabada, claro) em que vou tecendo em cada detalhe uma nova trama, um novo desenho de mim mesma, de meus anseios e aspirações. E foi só mudar de casa e começar a de-corá-la que na mesma semana começaram a entrar na minha vida novas pessoas e novas gestalts existenciais, instaurando uma nova dinâmica em meu modo de viver e me relacionar.
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Ao mudar de casa, eu dei a mim mesma um novo ponto de partida, assim como fazemos nos rituais de Ano Novo, ou mesmo nas nossas festas de aniversário, nas quais podemos supor que o bolo representa a vida sendo saboreada, fatia por fatia, nos nutrindo e trazendo doçura ao mesmo tempo... Esses rituais estão enraizados nos antigos rituais de renovação do tempo praticados pelos povos ancestrais, em que havia um retorno à unidade anterior à Criação, os quais baseavam-se na concepção de que a vida em sua plenitude não pode ser restaurada, mas sim recriada através do retorno ao ponto em que surgiu das mãos do Criador, com todo o seu esplendor. Diante disso, os mitos de criação e de origem eram contados e revividos não só nessas cerimônias, mas também antes de qualquer construção: de uma casa, um templo, um objeto.
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Os povos ancestrais consideravam, por analogia, que qualquer criação é uma repetição, em escala reduzida, da criação cósmica do início dos tempos. Podemos pensar na nossa casa como esse “espaço sagrado” em que criamos o nosso mundo, trazendo para dentro dele o que mais valorizamos, e que reflita quem somos e em que direção queremos caminhar e encaminhar a nossa vida. E isso tem um efeito muito poderoso sobre nós, pois nos tira de uma condição passiva diante do nosso destino, colocando-nos numa atitude ativa, posicionando-nos como co-criadores de nossa realidade, pois se podemos considerar que o mundo é a nossa casa, podemos também pensar a nossa casa como um micro-mundo que reflete o nosso mundo interior e interfere no mundo à nossa volta.
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O Ovo do Mundo aparece em vários mitos de criação como a substância básica da qual o universo é formado. Os ovos precisam ser chocados e abrigados num ninho que os contenha e proteja durante sua maturação. O feto necessita do calor e contenção uterina para se transformar numa criança completa. A semente é colocada dentro da terra até que possa irromper como planta e romper o solo em direção ao céu. Para que um processo se realize e se torne visível como forma posta no mundo, precisamos contar com a ação do calor do fogo, da energia amorosa que impulsiona a passagem do não-ser ao ser, do latente ao manifesto, bem como com a receptividade de um continente para o seu desenrolar.
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Héstia é a deusa que personifica o Fogo Sagrado que era colocado no centro dos altares, das casas e das cidades gregas, representando o fogo que nunca pode se apagar, simbolizando o fogo que vem do cento da terra e a lareira do universo. E o centro é o local para onde convergem e de onde irradiam-se as 4 direções (Norte, Sul, Leste, Oeste), ordenando o mundo e o transformando numa unidade significativa. Como calor, promove a afetividade, tecendo relações e criando vínculos. Favorecendo o amadurecimento da vida contida dentro do ovo, expressa a possibilidade de harmonização e integração amorosa de pontos de vista divergentes, congregando essas diferenças em torno de um princípio maior e mais abrangente, ou seja, o que é sagrado para cada um de nós.
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Assim como toda semente necessita de um vaso que a acolha e lhe forneça os nutrientes e condições propícias para a sua germinação, podemos pensar e buscar criar na nossa casa um ambiente que se assemelhe a um “vaso sagrado” (as mulheres de tradição indígena norte-americana consideravam os seus úteros como um vaso sagrado, segundo J. Sams), um espaço acolhedor e repleto do calor necessário para que os nossos potenciais floresçam e preencham a nossa vida com aromas e cores, tornando-a bela, um deleite para os olhos e um ninho para os nossos sonhos de felicidade, amor e auto-realização...
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(Esse texto foi escrito por mim a pedido de uma nova revista que iria ser lançada - Mais Sim - para a seção de decoração, que se chamaria: De-coração. Como o lançamento dessa revista acabou não acontecendo, compartilho esse texto com vocês aqui)

20/01/2009

Em busca do sol!

"Olhamos a estrela como olhamos o fogo.
Sabendo que são uma mesma substância,
apenas diferindo na distância
em que a si mesmos se consomem."
(Mia Couto)
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"A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na prórpia luz consumida..."
(Mário Quintana)
"O que o universo está fazendo
neste exato momento?
Espreitando cada desejo seu."
(Deepak Chopra)

Travessia


"Ó Nossa Mãe Terra, Ó Nosso Pai Céu
Nós somos as suas crianças e com as costas cansadas
Carregamos os seus amados presentes.
Por isso teçam para nós o manto da luminosidade
E que a urdidura seja a branca luz da manhã
Que a linha seja a luz vermelha do entardecer
Que a franja seja o cair da chuva
Que a bainha seja o arco-íris.
Portanto teçam para nós o manto da luminosidade
Para andarmos em equilíbrio lá onde a grama é verde
Ó Nossa Mãe Terra, Ó Nosso Pai Céu."

(prece Tewe)
























18/01/2009

Viagens


"Todas as viagens possuem destinos secretos de que o viajante não se dá conta."
(Martin Buber)




"Devemos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para podermos ter a vida que está esperando por nós."
(Joseph Campbell)

"Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio."
(Lya Luft)

"A vida só é possível reinventada."
(Cecília Meireles)

13/01/2009

Renascer...



"Estou virando uma menina
tornada mulherinha
com tanta colherinha
de maturidade
ainda assim me sinto parida agora
tenra, maçã nova
nova Eva novo pecado.
Tudo gira e eu renasço menina
vestido curto na alma de dentro...
Deixo no mar os velhos adereços
a velha cristaleira, os velhos vícios
as caducas mágoas.
Nasce a mulher-menina de se amar
com água no ventre e no olhar."

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comece você primeiro passando verniz nos móveis,
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos ...
que lá vou eu de novo na solteirice ...
Sim. Vestirei vermelho, carmim, escarlate ..."

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"O amor vai ser esse cello
de generosos eus
tocados por Deus."

(Elisa Lucinda, trechos de seus poemas, do livro: O Semelhante)


12/01/2009

Adormecer...



"Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Um ser profundo e aberto, um ser amado."
(Mario Faustino)

Acordar...


"...Eu que quero do cerne à epiderme,
quero saber a noite que se esconde
em mim
e revelar e vibrar meu dia.
Quero saborear o divino,
e a Vênus que me guia.
(...)
Eu que da vida só quero a vida,
rasgo a veia por um pouco de azul!"
(Rosilda Abuizze)
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"Acordar não é de dentro.
Acordar é ter saída."
(João Cabral de Melo Neto)


11/01/2009

Beijo




RECONSTITUIÇÃO
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"Tive de repente
saudade da bebida que eu estava bebendo...
tive saudade e tentei me lembrar que gosto faltava,
Fui procurando entre copos e móveis
e dei com sua boca.

A bebida era o beijo"
(Elisa Lucinda)
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"Dentro de mim mora um grito.
De noite, ele sai com suas garras, à caça
De algo para amar
."
(Sylvia Plath)

10/01/2009

“O Coração do Menino e o Menino do Coração”






















"Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe." (Guimarães Rosa)





















Procurando em minhas fotos uma imagem para colocar aqui, percebi entre as fotos tiradas de um coração feito por mim com conchas na areia da praia, nesse final de ano, que em duas delas fotografei os meus pés junto ao coração, e nem sei bem porque (não sabia, até me reencontrar com Mia Couto!), mas tirei os pés juntos em uma delas, e eles abertos em outra... relendo essa história de Mia Couto, tão sensível e bela, percebi que já estava sendo preparado, em meu coração nessa virada de ano, um intenso trabalho de parto.... Compartilho então essa história com vocês, espero que se deliciem com ela!!!
O CORAÇÃO DO MENINO E O MENINO DO CORAÇÃO
"O miúdo nasceu com as acertadas aparências. Só em altura de ensaiar primeiras marchas lhe notaram o defeito, o enviezamento nos pezinhos, cada um não sendo como cada qual. Sobre as pegadas estrábicas a avó vaticinou:
- Este miúdo vai caminhar para dentro dele mesmo.
Depois outra malconveniência se somou: o rapaz engrumava com o riso parvo de quem finge concordância. Não há medo maior que o riso parvo de quem finge concordância. Não há medo maior que não se entender humana voz de outra humana pessoa.
A mãe conduziu a criança ao hospital. O doutor mergulhou o ouvido no peito e se ensurdeceu de tanto coração. O menino tinha o pulsar à flor da pele. O médico parecia entusiasmado com o inédito caso.
- Necessitamos que ele fique, para mais exames...
- Nem pensar. Esse menino entrou comigo, há de sair comigo.
- Mas a senhora nem faz idéia... temos que encontrar um nome para a doença dele.
- Como um nome?
- Essa doença: eu tenho que encontrar um nome!
- Mas esse nome, será que vai curar a doença dele?
O médico sorriu. Ai essa gentinha simples, tão exímia em ser pensada pelos outros. E assim, sorriso descaindo no lábio, ficou olhando, mãe e filho se afastarem no corredor. O menino levava em sua mão, descaída uma pétala, uma carta que ele mesmo redigira. Queria ter dado ao doutor esse papelinho que sua inabilidade enchera de letrinha. Com desatenta ternura, a mãe lhe tirou o papel dos dedos e o lançou no latão. A mania desse mirabolhante! Deveria ser outra dessas tantíssimas cartas que o tontinho fingia escrever para sua apaixonada priminha.
- Você ainda se carteia com Marlisa?
O menino negou com veemência. A mãe sacudiu a cabeça. Enfim, quanto ela se esforçara em vão. Valera a pena insistir em ensinamentos em quem nunca aprendera? Também Marlisa, a visada sobrinha, jamais cedera em abrir as cartas. Nem valia a pena espreitar a caligrafia do atarantonto. Uns andaram na lua. No caso, a lua é que andava nele.
Certa vez, o rabiscador daqueles engatafunhos desabou no fundo do tempo. O menino faleceu, em azulidão de pele, todo frio como se nenhuma luz dele tivesse vontade. Os médicos acorreram para levarem o corpo e lhe administrarem a extrema autópsia. Lhe arrancaram o coração, o universátil músculo, enormíssimo como um planeta carnudo. O órgão ficou em vitrina, exposto à ciência e aos noticiários. Os cardiologistas disputavam, em sucessivos colóquios, um apropriado nome para batizar a anormalidade.
Passaram-se os dias, anônimos. Era um fim de tarde, a prima Marlisa, ao arrumar as poeiras da casa, deparou com um monte das inúteis cartas. Sopesou-as antes de as lançar no fogo. Hesitou por um segundinho: o moço sabia abecedar uma simples linha?
Pelo sim, pelo talvez, ela se aventurou a espreitar o primeiro envelope. E ali se sentou em espanto, ruga na fronte, mãos enrolando um demorado cabelo. Ficou horas no assentado degrau. Aquilo não eram cartas, mas versos de uma lindeza que nem cabiam no presente mundo. Marlisa inundou a tristeza, tingiram-se as letras. Quanto mais a prima primava em seguir leitura mais rimava com nenhuma outra mulher, toda ela fora do contexto de existir. A moça se apaixonava postumamente?
Mas ali, arremessada na escada, nem Marlisa imaginava o que, no simultâneo tempo, se passava com o coração do primo que Deus e a ciência guardavam. Pois que, na vitrina gelada do Hospital, mal se rasgou o primeiro envelope, o coração do primo deflagrou em sobressalto. Um oh se estilhaçou nos visitantes. E à medida que Marlisa, mais longe que mil paredes, ia desfolhando versos, o coração mais se desembrulhava, tremelusco-fuscando. Até que, daquele novelo vermelho, se viu desprender um braço, mais adiante um pé e a redondez de um joelho e mais argumentos que faziam valer o fato: aquele coração estava em flagrante serviço de parto! E se confirmava, vinda das entranhas do útero cardíaco, uma total recém-criança.
E quando, finalmente, o parto se desfechou, se viu que o menino nascera igual ao seu progenitor de peito. Fazia medo como um quimicava o outro a papel chapado. Em tudo se assemelhavam, menos no desenho do pé. Os pés do nascido eram divergentes, como quem viesse para procurar, fora de si, gente de outras histórias.” (Mia Couto)

09/01/2009

Conjugando o olhar serpenteante de Tirésias ao fogo criador de Hefesto












Olhando para uma foto tirada no Natal de 2007 (veja acima), curiosamente me deparei com uma imagem no espelho ao fundo, que se assemelha a uma mulher com um vestido branco andando num campo ou numa praia, e pode até ser que tenha alguém vestido de preto ao seu lado... é claro que cada um vê com os seus próprios olhos, e nem todos concordariam que uma mulher se presentificou nesse exato momento, como um reflexo no nespelho, dando notícias de uma realidade paralela (que pode ser apenas a dimensão da imaginação, porque não? Porque não considerar o imaginário como uma das dimensões da realidade?).

Da mesma forma, caminhando pela praia de Ubatuba na noite de lua cheia de 30/12/2008 (mas não estava com minha máquina!), vi na areia molhada do mar o reflexo das estrelas, e isso todos veriam e concordariam que é uma imagem real... mas sabe quantas pessoas olham para o chão à procura de estrelas, e se encantariam diante da magia natural de um céu que se deita na areia da praia, e ainda veriam nisso a possibilidade de uma mensagem cifrada do Universo, prenunciando a realização de sonhos (estrelas podem ser associadas simbolicamente aos nossos sonhos, e o chão à nossa realiadade)? Só os poetas, os artistas, os visionários... apesar de todos poderem enxergar essa imagem, nem todos se disporiam a vê-la para além dos olhos do corpo, com os olhos da alma... E Para as pessoas do tipo psicológico Intuição, que é o meu caso (e que muitas vezes são os visionários e artistas em todas as culturas), o que vemos com esse olho que não o do corpo nos parece, na maior parte das vezes, tão ou mais real do que o que está concretizado diante do nosso olhar... (e ai de nós se Dioniso não vier ao nosso encontro para nos redimir!)




“Mas é de noite, quando a alma vigia
e um olho, que não o do corpo,
espia.
(...)
A humilhação me prostra,
meia-noite, meio da vida a pino,
a cova, a mãe, o grande escuro é Deus
e forceja por nascer da minha carne.”
(Adélia Prado)



Personagem da mitologia grega, Tirésias simultaneamente torna-se cego e ganha o dom da mantéia (adivinhação). Sua cegueira aparece conjugada com um tipo de visão peculiar: “trevosa”, “noturna”, “ímpar”, “unificadora”. A vidência corresponde à visão “de dentro para fora”, “das trevas para a luz”, de acordo com Junito Brandão, pois costumamos associar o ato de ver à capacidade de focalizar objetos, destacando-os de um fundo, para a qual precisamos dos dois olhos abertos e da luz incidindo sobre esses objetos (visão “diurna”, “par”).

A cegueira/vidência de Tirésias tem origem em seu processo iniciático. Ao subir numa montanha e defrontar-se com um casal de cobras copulando, Tirésias mata a cobra fêmea, tornando-se, por isso, mulher, voltando a ser novamente do sexo masculino quando, sete anos mais tarde, encontrando-se numa situação similar, mata a cobra macho. Por ter a experiência dos dois sexos, foi chamado a dar sua opinião diante da questão levantada numa discussão entre Hera e Zeus (se era o homem ou a mulher que tinha mais prazer numa relação sexual). Citando Junito Brandão:

“A visão de Tirésias, etimologicamente , o que tem a capacidade de visão, é a visão de dentro para fora, por isso é mantis. Diga-se de passagem, que, de maneira muito constante, a mântica está relacionada com a serpente, réptil ctônico por excelência e, por isso mesmo, em comunicação com o mundo de baixo, depositário muito antigo da adivinhação.”... “Acrescente-se, por fim, que a cegueira atribuída a numerosos videntes, de Tirésias a Orfeu, ( ... ) está acoplada à esfera da mântica ctônica, trevosa. Vê-se, adivinha-se de dentro ara fora, das trevas para a luz...”

A simbologia das duas cobras copulando pode ser associada à Uroboros, serpente que come a própria cauda, símbolo da totalidade e do Caos primordial (presente em diversas culturas) em que os opostos estão indissoluvelmente unidos:

“A Uróboro também é símbolo da manifestação e da reabsorção cíclica; é a união sexual em si mesma, auto-fecundadora permanente, como o demonstra a cauda enfiada na boca; é transmutação perpétua de morte em vida, pois suas presas injetam veneno no próprio corpo (...) é sem dúvida a mais antiga imago mundi negro-africana, em que, com sua linha sinuosa, associando os contrários, ela encerra os oceanos primordiais no meio dos quais flutua o quadrado da Terra.”

(Chevalier e Gheerbrant)


Segundo a Picologia junguiana, a consciência nasce e se estrutura a partir do Caos inconsciente, através da vivência e elaboração de símbolos. A consciência discrimina e separa os opostos para poder conhecer e entrar em contato com os diversos aspectos da realidade. Por ser focal, ao iluminar determinados aspectos, destacando-os e discriminando-os do todo, ela cria sombra (da mesma forma que acontece quando um foco de luz incide sobre um objeto).

A sombra representa o que não queremos, não aguentamos ou não conseguimos enxergar. Tendemos a projetá-la no outro, que passa a ser depositário dos nossos “outros eus”, lançados para fora de nós e quase sempre rejeitados. Uma das características da sombra, quando projetada, é a de gerar uma forte reação de repulsa, ódio ou abominação diante do que não queremos ver em nós mesmos. Quando a sombra é iluminada e assimilada pela consciência, favorece a criatividade e a equilibração psíquica. A sombra é também o desconhecido, o inconsciente. A consciência é sempre unilateral (só consegue enfocar um aspecto de cada vez) e necessita estabelecer relações significativas com o outro e com o inconsciente para poder ampliar-se.

Tirésias nos propõe inverter a ordem “diurna”, consciente (pois simbolicamente as “trevas” são associadas ao desconhecido e a luz à consciência), e ver o mundo com outros olhos, a partir de um novo ponto de vista. Vendo o mundo de “dentro para fora”, desestabiliza as nossas concepções anteriormente constituídas. Diante dessa proposição, podemos não encontrar, de antemão, referenciais para nos situarmos com relação a essa nova experiência, o que pode gerar sentimentos de angústia e medo.

A visão de Tirésias tinha um caráter peculiar: ele agia, para seus consulentes, como um espelho que refletia a face oculta, velada, de suas personalidades; ele trazia à tona as tramas invisíveis do Espírito, do desconhecido em nós, o que sempre provocava algum tipo de reação. Toda revelação instaura um novo foco ao redor do qual as experiências e expectativas se reorganizam, deflagrando um processo de transformação das relações eu-outro, eu-mundo, a partir de uma ampliação de consciência.

Crono, ao receber a revelação de que um dos seus filhos o destronaria, passou a engoli-los. No entanto, o oráculo só denunciou o caráter devorador, voraz, de qualquer padrão ou princípio ordenador que se pretenda absoluto e perpétuo, não abrangendo com isso a possibilidade e necessidade de reovação periódica. Talvez, e muito provavelmente, Crono, não suportando a visão de sua ambição desmedida pelo poder, engolisse seus filhos para não confrontar-se com os aspectos sombrios de seus desejos.

Muitas vezes agimos como Crono quando nos deparamos com o caráter estranho e inusitado do novo. O novo assusta, não só por ser uma ameaça de destruição ao que já tem nome e forma, não só pelo prenúncio de uma futura mudança, mas por já instaurá-la. O novo, como um recém-nascido, denuncia a nossa própria fragilidade ao lidar com realidades inusitadas. O novo assusta por conjugar morte e vida numa única experiência: o destronamento de Crono é concomitante, e não posterior, à geração e ao nascimento de seus filhos - é o próprio futuro tornado presente e trazendo o desmanchamento do passado que lhe deu origem. Engolir os filhos é como uma tentativa de se apossar do fluxo vital, tentativa vã: estancar, aprisionar, pode trazer pode trazer a ilusão de completude, ao preço de ser capturado pelas próprias ansiedades e medos, e o ser dobrar-se sobre si mesmo como ácido corrosivo.

A cegueira/visão de Tirésias, portanto, se nos apresenta como um símbolo com o qual podemos nos disponibilizar a interagir (ampliando a nossa consciência), ou diante do qual podemos ter uma reação de repulsa, medo, negação ou idealização como forma de fugirmos ao confronto com o que nos causa estranheza.

Na mitologia de vários povos, a cegueira aparece conjugada com a vidência. Aparentemente, a cegueira de Tirésias é fruto de um castigo (imposto por Hera) e sua vidência uma compensação (concedida por Zeus). No entanto, um olhar mais aprofundado revelará que ambas são contingências de um processo iniciático, e, portanto, correspondem à expressão de um momento existencial, a uma determinada qualidade de experiência. Um olhar prospectivo nos mostraria então que existe nesse binômio (cegueira/vidência) uma especificidade do ser a ser apreendida e compreendida, um determinado posicionamento diante de si próprio e do mundo. E como somos limitados por natureza e por nosso aparato psíquico não nos permitir abarcar a totalidade dos fenômenos, necessitamos, enquanto corpo social, que outros nos falem do que vivem e percebem a partir de seus pontos de vista, da mesma forma que nos vemos no e através do olhar do outro.

Precisamos estar em contato com os nossos “outros eus” para que a complexidade e riqueza da nossa existência caleidoscópica e multifacetada possa ser abarcada e contemplada. Muitos iam ao encontro de Tirésias para lhe perguntar o que ele estava vendo lá de onde ele estava, e da mesma forma Tirésias, através dessas pessoas, saía de sua caverna. E esse encontro e essa troca só era possível porque havia familiaridade entre Tirésias e seus consulentes, ambos eram seres humanos e passavam por experiências de vida semelhantes, paradoxalmente.

Nos mitos, encontramos frequentemente o binômio deficiência/eficiência, como em Hefesto, que é um deus coxo. Há duas versões para a origem do defeito físico de Hefesto. Em uma delas, Hera, indignada pelo fato de Zeus ter gerado sozinho a sua filha Atená (deusa da sabedoria, que nasceu a partir da cabeça de Zeus, já mulher feita, com 21 anos), decidiu também gerar por conta própria um filho: Hefesto. Só que Hefesto teria nascido com os pés tortos e, como mancava, Hera, sentindo-se humilhada, o rejeita, lançando-o do Olimpo abaixo. Em outra versão, durante uma discussão entre Zeus e Hera, Hefesto toma o partido da mãe e diante disso Zeus, enfurecido, pegou Hefesto por um de seus pés e o atitou fora do Olimpo, e com o tombo Hefesto teria ficado aleijado e manco.
Em ambas as versões, após ser atirado, ele rola pelo espaço durante todo um dia, e depois é acolhido: na primeira versão, ele cai na olha de Lemnos e é recolhido pelos habitantes da ilha; na segunda, ele cai no mar, sendo recolhido por Tétis e Eurínome, que o acolhem durante 9 anos numa gruta no fundo do mar, onde ele, num processo iniciático, aprendeu a forjar o ferro, o bronze e os metais preciosos, tornando-se, segundo Junito Brandão, "o mais engenhoso de todos os filhos do céu", forjando os instrumentos de guerra e as jóias dos deuses.

Junito conta que Hefesto chegou a forjar um trono de ouro para ela, mas que na verdade era uma armadilha: ao sentar-se nele, Hera não consegue mais sair de lá, e é Dioniso quem, com o seu vinho, embraga Hefesto e consegue levá-lo de volta ao Olimpo para desatar a mãe desse trono, e com isso Dioniso o ajuda a dissolver a margura decorrente da rejeição e do abandono, tornando-o apto a ter uma esposa - diga-se de passagem que Hefesto foi marido de Afrodite (exigiu isso para libertar Hera de seu trono), a própria deusa do amor e da beleza, nada menos que isso!!!

Hefesto canaliza o seu fogo para a criatividade e a cura. Torna-se também o deus dos nós, o que lhe conferia poderes mágicos, sendo portanto o "xamã do Olimpo", de acordo com Brandão. Em várias mitologias, são os Deuses-Ferreiros ou os ferreiros divinos que forjam o raio e o relâmpago usados pelos deuses. É também um deus-ferreiro que entrega ao Deus-Trovão as armas com que ele vence o monstro – o Dragão aquático ou a serpente, criando e organizando o mundo (segundo Mircea Eliade). A imagem do ferreiro aparece, em diversas culturas, intimamente relacionada a rituais de cura e de iniciação, ao canto e dança e às construções em geral.

Tanto em Tirésias quanto em Hefesto encontramos a conjugação dos opostos deficiência/eficiência, talvez mostrando que nunca se é só uma dessas coisas: o “deficiente” ou o “eficiente”. Além disso, há sempre uma trama de significações abarcando a totalidade dessa vivência, que geralmente vem relacionada a um processo de iniciação, onde se sacrifica determinado aspecto ou modo de existir para a aquisição de novas formas de ser e estar em relação.

No nosso cotidiano, ao elegermos um desses opostos como desejável, aceitável, invejável, e o outro como desprezível, indesejável, inaceitável, criamos uma disparidade que limita e compromete a nossa percepção e possibilidade de compreensão de nós mesmos e do mundo que nos cerca, dando margem ao estabelecimento de relações assimétricas, que podem tornar-se opressoras e segregadoras, e à criação e perpetuação de mecanismos de exclusão e abandono do que não desejamos em nós ou para nós, ou do que consideramos como “elemento estranho” à nossa constituição.


“... deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; ... , receei ficar mais tempo e enlouquecer.”

(Machado de Assis)


O diferente, depositário, através desse tipo de atitude, da sombra individual ou coletiva, fica sujeito ao preconceito e à estigmatização, a não ser aceito e reconhecido como parte da humanidade e do corpo social (podendo ser visto como um “câncer” a ser extirpado ou uma “aberração” a ser encoberta, escondida). Isso pode acarretar, para o diferente uma auto-imagem distorcida, dificultando sua auto-aceitação e gerando por vezes sentimentos de vergonha, culpa e de desvalorização.

Ele pode então passar a afastar-se do convívio social e das relações mistas (por temer ser rejeitado), isolando-se e impondo-se a exclusão de “dentro para fora”. Pode aceitar e incorporar o papel de “bode expiatório”, passando a ver-se como o que carrega a falta, o defeito, os “males”, às vezes impondo-se um esforço sobre-humano para destacar-se em algum setor como compensação do que considera como uma “falta”, ou tendo suas conquistas hiper-valorizadas, como se decorressem de um ato heróico (o que é consequência de uma desqualificação e desvalorização de suas capacidades). O diferente pode também colocar-se no lugar da vítima a ser imolada, talvez no desespero de, pelo menos assim, encontrar um lugar, reconhecido pelo outro, para habitar. Outras vezes, pode incorporar o estigma “ao avesso”, agregando-se a guetos em que a união entre os membros pode basear-se e consolidar-se através da oposição àqueles que os estigmatizam.

Em todas essas atitudes, tanto por um lado (da normalidade) quanto por outro (das diferenças), o diferente é visto como um “elemento estranho”, dissonante, sendo desterritorializado, desqualificado e muitas vezes despido de seu caráter humano (“coisificado”), sendo considerado pelo senso comum como aquele que deve ser banido, escondido ou rechaçado.


“Há muitas formas de se tratar anomalias. Pela via negativa, podemos ignorá-las; simplesmente não percebê-las e, se as percebemos, podemos condená-las. Pela via positiva, podemos deliberadamente confrontar a anomalia e procurar um novo padrão de realidade no qual ela tenha lugar."

(Mary Douglas)


Todo símbolo, por ser uma criação conjunta entre a consciência e o inconsciente, contém aspectos conhecidos e desconhecidos. Se não houvesse nos símbolos algo que pudesse ser reconhecido pelo ego, não haveria material com o qual a consciência pudesse se relacionar para integrar em sua esfera os aspectos novos e desconhecidos veiculados por eles. O símbolo, dentro da abordagem junguiana, não é um disfarce ou simulação de uma realidade outra, mas um elemento revolucionário, desestabilizador, na medida em que traz o novo, o que não se enquadra nos moldes já constituídos pelo ego, movendo-o em direção à busca de novos significados e de referenciais mais amplos.

O contato com o símbolo desorganiza o status quo consciente, o que pode ser vivenciado, num primeiro momento, como uma ameaça à integridade psíquica, pois traz à tona a urgência de renovação e resignificação, definindo o eu e o outro, e as contingências que os envolvem, a partir de novas bases.

Podemos pensar que o contato com o diferente, assim como todo confronto com um novo símbolo, faz emergir questões que desestruturam em algum nível os referenciais do ego (que tem uma certa tendência à inércia e ao conservadorismo) podendo despertar reações ambivalentes, como as de ataque e fuga, atração e repulsão. Pois essa é uma vivência que envolve a percepção de novas possibilidades existenciais, o que mobiliza a reformulação de ideais, expandindo os contornos da experiência inter e intra-subjetiva.

Será que ainda precisamos perpetuar rituais como os do bode expiatório para nos desvencilharmos das vivências terroríficas, ameaçadoras ou simplesmente inusitadas desencadeadas pelo espelhamento-projeção de nossa sombra nos aspectos não familiares e rejeitados (ou valorizados negativamente por nossa cultura)? Ou poderemos ser mais criativos e humanos, criando espaços em que o contato com os aspectos sombrios ou desconhecidos do ser possa ser vivido construtivamente, ao invés de defensivamente?

Se a diferença/deficiência gera uma reação emocional tão intensa nos que entram em contato com ela é porque no “estranho” e inusitado existe algo de familiar, de alguma forma as pessoas, em algum nível, se reconhecem nele. Sendo assim, os mecanismos de exclusão do diferente também nos apartam de aspectos relevantes de nossa constituição como pessoa e como humanidade, significando sempre uma perda, um empobrecimento.

Tanto Tirésias quanto Hefesto possuem as marcas de quem foi além de si mesmo. Ambos transcenderam e conjugaram criativamente as polaridades. Mostraram aos homens e aos deuses que não existe trevas sem luz, deficiência sem eficiência. Ambos, Hefesto e Tirésias manejavam uma determinada espécie de fogo: Tirésias transmuta o fogo dos desejos, da libido, em “luz-consciência”, simbolizando uma subida em direção ao significado. Hefesto, cujo nome significa: "o que incendeia a água" (segundo Junito Brandao em seu Dicionário Mítico-etimológico), por outro lado, é um deus que, atirado à terra, trabalha no interior de um vulcão, utilizando o fogo celeste para acelerar os processos da natureza, como um alquimista, dando forma e visibilidade aos atributos divinos e insuflando o sopro-fogo criador na matéria. Ambos transcenderam e conjugaram criativamente as polaridaes.

"Deus coxo e artífice genial, Hefesto carrega em si a contradição entre a perfeição e o erro, inconcebível em uma divindade, mas inerente à natureza dos seres humanos." (Ana Maria Cordeiro e Victor Palomo, no livro: Mitologia Simbólica)


Ambos mostraram aos homens e aos deuses que não existe trevas sem luz (os pintores sabem disso muito bem!), feiura sem a beleza para lhe fazer o contraponto (Hefesto casado com Afrodite!), deficiência sem eficiência, vida sem morte, morte sem renascimento, consciência sem inconsciente, ... e que o mundo fica mais bonito, amplo e iluminado se conseguimos conceber todos esses atributos como igualitariamente participantes e atuantes na constituição do ser.

Podemos recorrer à habilidade artística de Hefesto, ao seu fogo criador, e conjugá-la com a profundidade da visão serpenteante, reveladora e auto-reflexiva de Tirésias para criar espaços de convivência e trocas significativas entre as diferenças, possibilitando o exercício da alteridade. (E o trabalho em Arteterapia e com Oficinas de Cratividade pode e ser um desses espaços!). Pois é só através da disponibilização para a troca significativa com o outro, da abertura para conciliar os opostos e conjugá-los amorosamente (com a ajuda de Eros) que os antagonismos podem ser superados através da criação de paradigmas mais amplos e flexíveis que regulem e permeiem as relações.


“Eros...traduz ainda a complexio oppositorum, a união dos opostos. O amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda a existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros busca superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade.”
(Junito Brandão)